Mercearia O Careca: um patrimônio da cidade

A arquitetura colonial brasileira com intervenções do modernismo formam hoje  a faixada alta do prédio. O visual é imponente, mas despercebido pelos passantes da Rua José Fernandes Vieira, onde está instalado. O interessante é que o pavimento térreo desse imóvel nunca está vazio de gente, pois é lá que funciona uma das mercearias mais antigas do Centro da cidade: MERCEARIA O CARECA.

DSCN9841

A mercearia faz parte das lojas que ficam na área externa do Mercado Municipal de Maranguape. Ela resiste aos anos com seu estilo à moda antiga competindo com as redes de supermercados varejistas existentes no perímetro. O tradicional estabelecimento tem de tudo um pouco, carrega a história e leva vantagens no nome MERCEARIA, orginalmente charmoso e que ganha apreciação de empreendedores contemporâneos, inspirados no estilo de moda retrô, uma nova tendência no mercado dos negócios.

DSCN9842

Já se vão 51 anos de trabalho do Sr. Raimundo Jerônimo de Araújo, 83, popularmente conhecido como Raimundo Careca. Um homem alvo, de óculos, sério, mas um grande contador de histórias. Quando fala sobre o seu comércio é como se estivesse vendo todo o passado a sua frente. Natural de São Miguel, Rio Grande do Norte, traz no sangue o jeito de ser merceeiro. Chegou em Maranguape em 19 de dezembro de 1959 e foi trabalhar como ajudante dos irmãos. O próprio negócio abriu em 1º de janeiro de 1967. A placa feita de papel, escrita em pincel azul, com a data de registro da firma nos órgãos competentes, está exposta na prateleira para todos os fregueses conferirem.

DSCN9759

É um comércio simplório e bonito de se ver. Tudo funciona como nos tempos em que não havia tecnologia. As prateleiras de madeira, que já ultrapassaram o século, estão lá com produtos de consumo, alimentos, artigos de higiene, enlatados, bebidas e outros itens de uso doméstico. O cofre grande, de aço, é bem antigo está lá por trás do balcão dividindo o espaço com o proprietário e o ajudante. Não tem quase nada moderno, além da geladeira, uma TV fechada no alto da parede, um banner com a foto do dono e uma pequena  máquina de calcular coberta com uma toalhinha, nota-se que é pouco utilizada.

DSCN9760

O balcão de madeira, pintado de cinza, exala cheiro de rapadura e o freguês pode escolher entre a tradicional rapadura sem coco, com coco, preta, amendoim e até de mamão. Uma cesta cheia de alho, uma balança Filizola antiga (muito bem conservada), garrafas de mel, maços de papéis para embrulhar as compras e um rolo de cordão. Tudo isso ocupam o restante do espaço. Uma exclusividade da mercearia é a embalagem. Nada de reinventado, mas do mesmo modo que se embrulhava no século passado com o papel envolvendo a mercadoria, que vai para a casa do comprador amarrada por um cordão, dado o nó . Acho isso o máximo!

 

É na Mercearia O Careca que encontramos o melhor mel de abelha italiana, mel de cana.  A farinha  que vem de São Miguel do Pará é primeira. Meu pai era consumidor  fiel da mercearia. Não queria farinha de outro canto, a não ser do Sr. Raimundo Careca. Levei para casa, rapadura e mel de cana para por sobre o inhame cozido, um costume que temos em casa.

Arroz, feijão, farinha, milho, açúcar são outros gêneros que o cliente tem a seu dispor na Mercearia O Careca. Retirados dos sacos, com uma concha de alumínio,  os produtos são vendidos a granel, oferecendo ao consumidor a opção de levar apenas a quantidade que ele precisa. Um jeito bem antigo de se vender, mas ainda bem comum nas portas de mercados.

O Sr. Raimundo Careca está sempre atento aos seus clientes. A nossa conversa se deu entre um despacho e outro. Por nenhum instante,  ele se perdeu no troco e nas contas feitas de cabeça. O dono da mercearia conhece os fregueses da cidade e os que vêm de longe. Pois é, outro lucro certo que fica no bolso do Sr. Raimundo Careca é a amizade firmada.

DSCN9777

Cerca de 500 pessoas passam pelo venda diariamente. “Abro as portas de segunda a segunda, a partir das 7h. Aqui são 13 horas de serviço corrido. O almoço vem de casa  e é aqui mesmo que faço minha refeição”, disse. Perguntei  se  a mercearia  foi sua única fonte de renda durante toda vida . A resposta foi SIM. O negócio deu para formar as duas filhas e manter a casa. Só depois de 35 anos de contribuição ao INSS é que entrou outra renda para ajudar no sustento do lar.

DSCN9750

“Nunca fiquei com nada de ninguém. O que deixam no balcão fica no balcão até o dono vir buscar  e aqui não falta gente”. Ele contou um episódio ocorrido com o Sr. Francisco Desidério, morador de Sapupara. O homem deixou a carteira no balcão e quando voltou dias depois recuperou seus pertences. Coincidência demais, o Sr. Desidério apareceu bem na hora que estávamos conversando e confirmou a honestidade do vendedor.

DSCN9785

A Mercearia O Careca é uma das mais fotografadas pelo seu estilo antigo. Com orgulho diz  que já foi entrevistado por canal de TV como o homem  de mais idade que continua no trabalho. “Tenho a cara dura, mas fazer amizade comigo é fácil, basta entrar aqui com respeito”.

foto carecaO comerciante de 83 anos não pensa em ficar em casa tão cedo e pela cara, está longe de trocar a mercearia, que já faz parte do Patrimônio da Cidade, por uma poltrona. Que Deus lhe dê vida longa Senhor Raimundo Careca com toda essa coragem que tem.

Bye! Vou continuar contando mais histórias a minha moda. Fiquem comigo!

Passeando pela mercearia

DSCN9767

 

 

 

Deixe um comentário