Em terra de muitos artistas o que não pode faltar é casa com portas abertas para deixar a cultura entrar e brotar pelas paredes. A Sociedade Artística Maranguapense, construída como obra de emergência à grande seca de 1877/79, nasceu com o seu destino maravilhosamente traçado. Após esse fenômeno natural causado pela escassez das chuvas que atingiu Maranguape, o prédio sediou escola pública e ao longo dos anos sua função maior foi abrigar a educação, a cultura e a arte, oportunizando aos talentos da terra mostrarem seus trabalhos e performance. A Artística está situada na Rua Major Agostinho, esquina com a Travessa Coronel Afro Campos .
O imóvel incorporado à Lei 1754/2003 de Proteção do Patrimônio Histórico, Cultural e Turístico do Município é um significativo exemplar da arquitetura colonial do Século XIX. A edificação térrea construída de tijolo e telha, tem na sua fachada principal (frente), uma porta e duas janelas; na lateral, pela Travessa Cel. Afro Campos, existem mais 10 portas, nove janelas e mais 11 falsas janelas.
Hoje, a Sociedade Artística faz parte do Corredor Cultural. Fica no mais belo cruzamento da Major, disputando beleza com o Solar Bonifácio Câmara, Residência da Família Matos e da Família Moura herdada pelo Sr. Luciano Mesquita. A Artística funciona com um pequeno teatro público, possui um salão de espetáculo com capacidade para cerca de 130 pessoas, palco teatral , assentos acolchoados, espaço de bastidores, camarim e banheiros (masculino e feminino). Dispõe ainda de uma recepção e uma sala de música – lugar de ensaios da Orquestra Municipal. Se está precisando de manutenção? Mais que urgente minha gente. E quanto à programação cultural,em outras épocas foi bem nutrida,mas agora anda bem escassa. Aqui e acolá vimos acontecer uma peça teatral nos finais de semana para divertir a criançada. O espaço abraça, ainda, agendas para reuniões de empresas e encontros de grupos religiosos.
O prédio ocupa quase metade do quarteirão e nele ainda estão estabelecidos marceneiros e carpinteiros que com fino trato transformam objetos usados tipo cadeira, mesas, mobílias como faz Titico e seu irmão Toinho. Eles aprenderam a arte desde garotinhos e exercem a profissão ali. Uma herança do pai Zé Costa, um dos marceneiros mais conhecidos da cidade, que após a venda do Solar dos Correias onde trabalhava, alicerçou sua carreira instalado no prédio da Artística, onde permaneceu por muito anos até se afastar pra cuidar da saúde.
Por ali passaram outros profissionais como o senhor Luiz Bezerra, João Bezerra mais conhecido como João Lessa, Mundinho e Djair (Também filho do Zé Costa). Hoje, o lugar deles foi ocupado pelo comercio como a lojinha de artigos infantis e uma simpática lancheteria que oferece à clientela vários tipos de lanches, sucos e demais tipos de comida. Os empreendimentos instalados têm sido um bom negócio para aproximar a comunidade da Sociedade Artística, sua herança cultural , uma vez que o Poder Público não investe em ações educativas para difundir o conhecimento sobre o patrimônio.
A Sociedade Artística Maranguapense reúne uma quantidade de histórias e curiosidades. Desde 1919, que seu ambiente vem acolhendo atividades culturais. Foi sede da Sociedade de Artistas, funcionou com o Teatro São José e Cine São Jose; foi no palco da Artística que a Legião Cearense do Trabalho divulgou suas ideias. No passado foi escolhido o melhor recinto para os grupos de atores amadores de Maranguape apresentarem seus dramas, proporcionando a diversão dos jovens que tinham poucas opções de lazer na cidade. Debaixo do teto da Sociedade Artística foram realizados grandes bailes carnavalescos, manifestações políticas e a promoção da educação de alunos de escolas pública e privada. Até que um dia perdeu a sua majestade e passou a guardar coisas dispensadas de uso, servindo de depósito da Prefeitura.
Vou fazer um aparte para falar como acontecia os bailes carnavalescos da Sede, como assim era chamada a Artística naquela época. Os moradores da Major Agostinho lembram muito bem , mencionaram até que ficavam na janela para ver os brincantes passarem fantasiados para a festa popular. As roupas eram de cetim, lamê e usavam chapéu coloridos e também feitos de esponja. Meu primo Chiquinho Nunes lembra muito bem desses dias mominos. “Na década de 60 (por volta de 1963/64), um senhor chamado Xavier, que trabalhava no mercado municipal cortando carne, organizava o baile. Quando chegava esse período do carnaval, faltando aproximadamente 15 dias, ele abria as portas da Artística para fazer uma limpeza geral no prédio fechado.Tinha muita poeira e fezes de morcego. Não sei se ele alugava ou era cedido. A gente sabia logo que ele ia fazer festa e corria para ajudar. Depois dos serviços de faxina, pintava rusticamente e deixava as paredes internas decoradas com máscaras enormes . Quando eu via a Sede aberta , me encostava lá, colaborava com a faxina e como ele conhecia o papai, me deixava entrar de graça. Detalhe: eu tinha horário de entrar e sair , por causa do Juizado de Menor que era muito rigoroso e a festa na verdade, era só para adultos. O carnaval começava no sábado, mas na sexta-feira, Xavier já fazia uma espécie de “esquenta” como chamamos hoje. A Orquestra que tocava era a do Antonio Lambivara, formada pelo Cirino (saxofonista) , Chico Preto do Banjo , Jacaré e muitas vezes o Pindaúba, na bateria. O cantor não lembro quem era. A folia rolava a noite toda. A frente da Artística era lotada, cheia de gente para entrar. O interessante é que dentro do prédio não tinha bebida, era só festa no salão e quem quisesse alguma coisa, tinha que comprar do lado de fora. Assim se realizava os quatro dias de carnaval, terminando na madrugada. Era uma coisa muito bacana!”
No ano de 1960, a Administração Municipal arquitetou o espaço para a construção de uma Biblioteca Pública Municipal, mas o projeto levado a Brasília pelo Deputado Paulo Sarasate, não se concretizou. Em 1962, a União doou o imóvel para o Município, através da Lei nº 4125 de 27 de agosto, para criação da biblioteca. Como nada foi feito, o local foi ocupado por marceneiros, carpinteiros e outros pequenos artesãos.Com a criação do Corredor Cultural, a Prefeitura assumiu o compromisso de executar a restauração com recursos municipais e de outras fontes. As obras tiveram início em 10 de maio de 2004. Pequenos quartos foram erguidos para abrigar os artesãos. A inauguração do prédio se deu em dois (2) de setembro de 2005, passando a funcionar o Núcleo de Artes, Educação e Cultura para o desenvolvimento de atividades da Orquestra de Corda, Teatro, Estúdio Fonográfico, Banda de Música Municipal João Inácio da Fonseca.
O vento já levou muita coisa, mas o prédio da Sociedade Artística do Século XIX está de pé nesse novo Século como muitos outros bens tombados. O que lamento é vê-lo agonizar por falta de atenção do Poder Público. Suas paredes estão desbotadas e sujas; portas e janelas estão rachadas e inseguras, os portais danificados e a calçada quebrada. Se a estrutura externa está assim, imaginemos como anda o interior do prédio. Não ousei entrar para curiar, mas duvido muito que as instalações estejam dignas de receber a sociedade e a vocação artística de Maranguape.
Vou ficando por aqui.
Finish. Let’s get on well with life.
