Lembro como se fosse hoje de nossas fugidas para a Rádio Iracema quando tínhamos aulas vagas no Colégio Estadual Anchieta (1973/1974) para pedir música ao Bonifácio de Almeida. A nossa turminha saía do estabelecimento correndo, enquanto passava o horário do professor que não tinha chegado no seu tempo de aula. O locutor anotava no papel o nome da música, quem estava oferecendo e para quem se destinava. Nós ficávamos na janela da Rádio esperando com muita alegria que Bonifácio colocasse nossa mensagem no ar e pusesse o vinil pra tocar. Naquela época, o rádio era uma grande conquista, era a comunicação de grande alcance e um dos melhores entretenimentos.
Se estivesse em pleno funcionamento, este ano, a Rádio Iracema de Maranguape Prefixo ZYH 33 iria comemorar seus 60 anos ou melhor, as Bodas de Diamantes. Que bom seria ver esse exemplo de resistência aos impactos econômicos e às novas tecnologias da comunicação! Mas quero dizer pra vocês que nem tudo acabou. Embalada naquele muro alto de uma casa comercial, ainda está a simples e formosa estrutura que abrigou a ZYH 33 Rádio Iracema de Maranguape. A proprietária dona Zelene é criteriosa e atesta que não fez grandes reformas para preservar o bem e a história. “Esse prédio era para ser tombado”, ressalta.
A estação de onda média em 1580 kilociclos foi instalada na Av. Stênio Gomes, no bairro Parque Iracema. Foi no dia 17 de janeiro de 1957, que a Rede Iracemista de Emissoras do Ceará adquiriu em Maranguape, de Dona Laura de Oliveira Nogueira, um terreno para construir um prédio para a nova filial. Em 19 de fevereiro de 1959, a Rádio Iracema de Maranguape recebe autorização para entrar no ar, em caráter experimental, de zero hora às seis horas da manhã. Sua inauguração aconteceu festivamente em 15 de agosto de 1959. A programação foi recheada de atrações, musicais, crônicas sobre a história da cidade e homenagem ao ilustre maranguapense, Capistrano de Abreu.

Cândida Lima Carneiro operou como locutora na festa de inauguração
Alfredo de Abreu Pereira Marques (in memoriam) foi o seu idealista. Ele se esforçou para a instalação de um meio de comunicação de massa com o poder de informar, educar e entreter. A Rádio por sua vez, buscou audiência, fez parte da vida dos maranguapenses e assinalou de modo indelével a vida da cidade, acompanhando suas transformações e seu desenvolvimento.
Os Inocentes e Os Barra Limpa (da esquerda para a direita)

O trio Zé Maciel, Lambivara e Raimundo André
A Rádio Iracema de Maranguape integrava a cidade e zona rural, atraía seus ouvintes que foram presenteados com apresentação de cantadores e grupos musicais formados por jovens da cidade como “Os Inocentes” e “Os Barra Limpa” . As escolas também participavam levando seus alunos para declamar poesias e fazer homenagens na emissora. A Iracema de Maranguape transmitia programas, tocava música, dava avisos para os moradores da zona urbana e rural, propagava mensagens e divulgava notícias. “Minha Música por Favor”, “Vesperal Alegre” e “Aquarela Sertaneja”, ficaram na lista dos programas de maior audiência. A Rádio Iracema teve larga função no âmbito informativo, educativo e cultural.

Irapuan Lima e Orlys
Vozes de mulheres e homens ecoaram nos bastidores e chegaram até as casas dos maranguapenes. Orlys Vasconcelos, a “lady speaker da saudosa era do rádio, foi uma das primeiras locutoras da Rádio Iracema de Maranguape. Um dos gloriosos nomes da locução feminina na era do rádio e homenageada entre os Melhores do Rádio Cearense nos anos de 1958 e 1959.
A Rádio, uma história, vozes que foram para o ar
Cerca de 50 profissionais passaram pelos estúdios da Rádio Iracema de Maranguape. Foram eles:
Adalberto Fernandes da Silva (operador de áudio), Agostinho Taveira de Paiva (locutor), Alfredo Alves Filho (operador de áudio), Alfredo de Abreu Pereira Marques (presidente), André Soares Bandeira (locutor),Antônio Rodrigues Ramos(operador de áudio), Antônio Yatagan Queiroz Martins (locutor), Aurélio Brasil (locutor), Cândida Lima Carneiro ( locutora), Cesanildo Lima (locutor), Damião Alves Bezerra (locutor), Francisco Edilberto Braga (locutor), Francisco Estaércio Queiroz Martins (locutor), Francisco de Assis Rodrigues (operador de transmissor), Francisco de Assis Santos (locutor), Jalmir Monteiro (locutor), Jean Robert Braquehais (loctor), Jesus Cavalcante (locutor), João Emídio Machado (operador de áudio), João Eudes Pereira (locutor), José Arimá Titara (operador de áudio), José Bonifácio Câmara (operador de áudio), José Edmar Sampaio ( operador de áudio), José Ferreira de Sousa (locutor), José Helder Medeiros Bezerra (operador de áudio), José Maria de Almeida (locutor), José Maria Ferreira da Silva (operador de áudio), Luiz Hermínio da Silva (operador de transmissor), Manoel Domingos Marques (operador de transmissor), Marilena Lima (locutora), Mário Sérgio Marques (operador de áudio), Mirtes Vasconcelos (locutora), Moisés Lourenço de Sousa(locutor), Olinto Parente de Albuquerque (diretor), Orlys Gurgel Vasconcelos (locutora), Osmar Felipe Cavalcante (operador de áudio), Otávio Albino Filho(operador de áudio), Raimundo Nonato Filho (operador de áudio), Regina Célia Dantas (locutora), Sebastião Oliveira e Silva (locutor), Sérgio Bezerra Luz (operador de áudio), Walmir Ramos da Silva (locutor), William Oliveira (locutor), Zacarias Mendes de Castro (operador de áudio), Zequinha Aristides (locutor), Álvaro Câmara Neto (locutor), José Pereira dos Santos (locutor), Aracimy Viana (locutora), Francisco Nivardo Lins Nobre (locutor).

O entusiasmo pela conquista da transmissora permaneceu por 19 anos, quando em 1978 foi permitida a concessão para a Rádio Cidade. Contam que Miguel Dias queria a emissora com maior potência. Procurou através da Prefeitura Municipal um terreno para localizar as torres e não recebeu o apoio por parte das autoridades. Os equipamentos foram desligados e ninguém mais ouviu o som do Guarani que era sua marca. A estação reservou dias marcantes e deixou memorável o papel fundamental que exerceu sobre a sociedade. O fim da Rádio Iracema de Maranguape foi na gestão do prefeito Antônio Gonçalves Moreira.
Memória e preservação – 50 anos depois

Foto tirada em 2009
A história da Rádio Iracema não pode ser esquecida. Quem passa e não vê o prédio, acha que o lugar é apenas uma lembrança. A atual proprietária, a professora Zelene, não se desfaz da história. No seu depoimento em 2009, ela declarou: “ Moro com muito orgulho na casa onde funcionou a Rádio Iracema de Maranguape”.

Para comemorar o cinquentenário da rádio que não mais existia fisicamente, a União Brasileira dos Trovadores (UBT), a Associação Beneficente Nossa Senhora da Penha (ABNSP), a Academia de Ciências,Letras e Artes de Columinjuba (ACLA) e os amigos da Rádio Iracema de Maranguape realizaram cerimônia no Maranguape Clube com exposição de fotos e homenagem aos radialistas e profissionais que trabalharam na emissora.

“A Rádio Iracema foi mais um sonho realizado e muito importante na minha vida. Apesar de há muito não estar mais no ar, ainda tenho tudo gravado na minha memória, com grata e saudosas lembranças”.
Por Dr. Alfredo Marques em agosto de 2009.
“Rádio Iracema de Maranguape e eu.
Hoje, ela representa para nós apenas uma saudade. Perdeu-se no tempo. Mas não foi esquecida por quantos sustentaram sua programação para entretenimento da cidade. Ainda guardo gratas recordações do tempo em que integrei o seu quadro de locutores.
Foi para mim motivo de surpresa receber o convite para participar da então recém criada Rádio Iracema de Maranguape, em 1959. Vivia-se a Era do Rádio. O convite me fora feito pelos que faziam parte da equipe do Dr. Alfredo Marques. Diante da insistência do convite, acabei por me decidir a colaborar com o novo empreendimento e, na data de sua inauguração,15 de agosto de 1959, lá estava eu operando como locutora da mais nova rádio do Ceará.
A iniciativa de dotar Maranguape de uma emissora de rádio seduziu uma grande parcela da juventude. Valeu, contudo, a experiência e hoje, quando 50 anos nos separam daquela fase histórica vivenciada por Maranguape, sinto-me gratificada por ter participado dessa história.”
Cândida Lima Carneiro em agosto de 2009
2019 – Dez anos depois do cinquentenário
Retornei hoje, 8 de abril de 2019, ao prédio onde funcionou a Rádio Iracema, dez anos depois das comemorações do cinquentenário e de minha visita à casa. Reencontrei Dona Zelene que me recebeu com a mesma alegria e sorriso no rosto. A fachada continua a mesma de quando a emissora estava no ar, só a pintura que recebeu uma nova cor. Recordei as palavras que ela tinha me dito há 10 anos de preservar a história. E a professora aposentada selou com muita firmeza o compromisso e o respeito à preservação da estação de rádio, que foi tão importante para Maranguape . Ela frisou:”Esse prédio era pra ser tombado”. A Rádio Iracema de Maranguape calou sua voz há 60 anos.
Fontes:
– Informações retiradas do folder publicitário elaborado por mim nos 50 anos da Rádio Iracema de Maranguape com colaboração de Alfredo Marques, Evandro Carneiro, Cândida Lima, Orlys Vasconcelos e Helder Medeiros.
-Livro “Maranguape” – Juarez Leitão
-site : maranguapefotos.blogspot.com
Fiquem com Deus.

Lembro-me dessa saudosa Iracema de Maranguape. Estudei no Liceu do Ceará com o Queiroz Martins (Fco. Estaércio), no científico. Bem como o Francisco Eudes, William Oliveira. O Olinto Albuquerque é meu colega de Secretaria da Fazenda(estamos aposentados). Sempre que eu ia a Canindé fazia questão de passar em frente a Iracema. Foi uma pena nao haver incentivo público para o incremento desse importante veículo de comunicação. – Coisas da política tacanha.
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