“Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo…”, “A fogueira está queimando, em homenagem a São João…”. Duvido alguém dizer que nunca ouviu cantar essas músicas quando chegam as festas juninas de Santo Antônio (13), São João Batista (24) e São Pedro (29). Até hoje o Brasil cultua a herança religiosa deixada pelos portugueses.
Fogueira, culinária típica, balões, brincadeiras, sanfona, bandeirinhas, quadrilhas, forró, vestido de chita, camisas de xadrez são distintivos da época e sem esses atributos não tem graça. Tudo é muito contagiante e nada melhor do que aproveitar o máximo a festa que relembra às origens caipira e batizada de São João na Roça, onde se toca a música sertaneja e se dança a quadrilha, nem que seja improvisada.
Amo festas juninas, adoro aluá, pé-de-moleque, milho cozido, bolo de macaxeira e todas as gulodices dessa estação. No sábado, 29, Dia de São Pedro, vesti minha camisa de xadrez, prendi o cabelo com uma flor de girassol e parti para o São João do Ipark (na Ypióca) com minhas “miguinhas”. É um lugar muito especial para mim, porque foi ali, naquelas instalações, que minha mãe passou a adolescência e juventude trabalhando com seu pai no processo de industrialização da cachaça Ypióca, ao lado do Sr. Paulo Campos Teles.
Antes de falar como foi a noite do São João vou fazer uma pausa para contar pra vocês algumas curiosidades da casa grande e do engenho de açúcar do Ipark. As memórias são do tempo que minha mãe, Maria Nunes, viveu por lá, meados dos anos 40 e 50. O tempo se foi, mas deixou marcas e boas lembranças. Quando seu pai, José Nunes, recebeu o convite para trabalhar com o Sr. Paulo Campos na administração do negócio, ele, viúvo com oito filhos, decidiu levar Maria em sua companhia para ajudá-lo nas obrigações. Os dois moravam na casa onde hoje funciona o museu. À minha mãe, ele deu a responsabilidade de cuidar do fornecimento. Era ela que entregava mercadorias para consumo dos trabalhadores como o arroz, feijão e outros mantimentos disponíveis. “Quando eles recebiam o pagamento no final do mês, eu descontava”, conta.
Foi nas terras do Ipark que minha mãe viveu a melhor época de produção da cachaça, viu os homens cultivarem o plantio da cana-de-açúcar, o corte, a colheita e a moagem; acompanhou de perto a etapa do engarrafamento da bebida, na forma mais artesanal, e testemunhou as vendas anotadas no caderno. Uma das coisas que ela gostava, era ver os empregados do engenho engarrafando a cachaça. “Eu me sentava ao lado deles. Era uma bacia cheia de aguardente. Eu tinha muita vontade de ficar com os pés dentro da cachaça e até que um dia fiz isso”. Ao perguntar se ela tinha colocado os pés na bebida que ia para venda, ela respondeu que sim: “meus pés estavam limpos”. Desejos assim surgem, hahahaha.
O ritmo de vida no engenho do Paulo Campos era de trabalho, mas as famílias envolvidas garantiam o estudo dos filhos. As crianças estudavam na escolinha montada pra eles. A professora Era minha mãe e foi ela também que auxiliou na alfabetização dos filhos do patrão, Maria Eugênia e Everardo, o menino que até hoje pergunta pela sua mestra demonstrando gratidão.
O Sr. Paulo Campos e sua mulher Dona Maria Augusta eram católicos e sempre participavam das festas do padroeiro da comunidade, Santo Antônio. Ofereciam prendas para os leilões e faziam questão de ver os empregados do engenho nos festejos. Foi aí que minha mãe se deu bem, porque foi na festa de Santo Antônio que ela começou o namoro com meu pai, Antonio Costa. Viveram mais de 60 anos no matrimônio. A separação se deu quando ele partiu para a casa do Pai.
A vida no engenho da Ypióca foi de muito aprendizado e paixão for my mother. Até hoje, ela lembra com saudade do cavalo “Pombo Roxo” que lhe levava para o centro da cidade de Maranguape, onde ia fazer compras e visitar as irmãs. Contam suas amigas, filhas do Sr. Jeová Matos, que a conheceram muito bem, que ela cavalgava com muita elegância, chamando atenção por onde passava.
A botija. Desse tempo da morada de minha mãe no engenho da Família Teles lucramos muitas histórias bonitas. Quem nunca ouviu a lenda popular das pessoas de tempos antigos que enterravam tesouros em segredo? Nós gostávamos muito de ouvir mamãe contando um sonho que teve por três dias seguidos. Um homem de chapéu branco lhe falava de uma botija no pé de uma árvore próxima à Casa Grande e que ela deveria desenterrar. Com muito medo, contou a seu pai e a conversa se espalhou. O Sr. Paulo Campos ao tomar conhecimento do assunto perguntou se ela reconheceria o tal homem ao ver a sua foto. A resposta foi sim. Ele trouxe “o retrato” de seu pai. Confirmado, era exatamente o homem que aparecia no sonho. No dia seguinte, quando foram olhar o local, alguém tinha cavado o buraco, não se sabe quem teve a coragem de descobrir o mistério e se encontraram algum tesouro enterrado lá. Amava ouvir essa história e ela foi repetida para nós por muitas e muitas vezes, assim como outras de visagem na casa e no terreiro que eram de arrepiar,antigamente tinha muito disso.
Ufa! Me estendi demais. É Porque adoro ouvir essas histórias e até hoje fico puxando por elas, mas mamãe já diminuiu o seu compasso. Ela agora fica prestando atenção a gente contar e admirada dá uma risadinha e diz: “valha, vocês sabem é de coisa”.
Tá na hora de voltar para o São João do Ipark e para entrar no clima de novo, vou começar assim: “Tem tanta fogueira, tem tanto balão…”. Tinha balão pendurado e espalhado pelo terreiro. Uma fogueira alta, com toras de madeiras bem empilhadas. Mais na frente encontramos barracas com comidas típicas, milho verde, bolos de macaxeira, pamonha, bebidas, churrascos, pipoqueiras e muitas mesas espalhadas. No alto, muitas bandeirinhas coloridas decorando o espaço.
Os tradicionais noivos da quadrilha de São João recepcionavam quem chegava com alegria estampada no rosto e energia de sobra para o arrasta-pé na quadra. Dezenas de luzes contornavam o Museu da Cachaça convidando para uma foto daquelas de morrer de paixão.
Tinha painéis representando a cidade cenográfica, casais de caipira para quem quisesse colocar o rosto, barraca do beijo, altar de Santo Antônio com o buquê de noiva em cima, tudo preparado para deixar o clima com a graça da roça. Nós fizemos vários registros. Vejam como ficou sensacional!
Ítalo o poeta e o sanfoneiro Waldonys foram as atrações da noite. Ítalo puxou o fole e chegou chegando com as tradicionais músicas de São João, deslizou os dedos pelo forró das antigas, convidou o público para viajar no Balão Mágico e ilariou com as músicas da Xuxa. A quadrilha improvisada levantou quem estava sentado nas cadeiras e não faltou público espectador prestigiando os dançarinos. Foi super, super legal a participação dos festeiros.
Os meninos da “Quadrilha Nova Emoção” exibiram sua performance. E quando o sanfoneiro Waldonys chegou, fogos de artifício explodiram no céu ,lança confetes brilharam no palco e o som do acordeon encheu o lugar.O “front stage” ficou repleto de fãs. Mãos pra cima e celulares no alto para as famosas selfies. Gente gravando vídeo, cantando em voz alta para depois postar nas mídias, no Story, Instagram e Facebook. Foi show! Quem não foi perdeu a melhor festa de São João na roça, no Dia de São Pedro.
Vou datar o dia que escrevi esse post, pois quero que ele seja lido pelo meu filho, neto e bisnetos quando eles estiverem sentados ao lado da cadeira da vovó daqui a alguns anos. Quero que eles sintam a mesma emoção que temos hoje ao contarmos para minha mãe tudo aquilo que foi vivido e dito por ela. Quero que eles conheçam e guardem para sempre as histórias da família que lhe deu origem. E quero estar bem, em “sã consciência”, para ouvir tudo isso, dar àquela risadinha igual de minha mãe e repetir as mesmas palavras: vocês sabem de tanta coisaaaaa. Pronto: Maranguape, 3 de julho de 2019.
Flashes
Bye! See you later!
