Oi gente! Estou de volta ao meu banco de histórias. Nesse tempo de pandemia é preciso gerenciar nossas emoções para reagirmos melhor aos impactos. Hoje, mergulhei nesse texto para o blog buscando minhas energias na coragem dessas mulheres que se entregaram a uma das profissões mais antigas, praticada pelas escravas, mas que no Século XIX reunia principalmente mulheres de classe pobre. O post é um tributo às MULHERES, pelo seu Dia Internacional, 8 de Março, e à memória das “Lavadeiras de Maranguape”, mulheres simples e dispostas, que diariamente embelezavam a paisagem de nossas ruas equilibrando pesadas trouxas de roupa, feito nó, na cabeça com destino às nascentes mais próximas da sede: os rios Pirapora, Pitancó, Gavião, Escorrego e Açude Vavaú. Tinha gente que lavava roupa até debaixo da ponte da Preguiça. Eram imagens bem comuns no cotidiano da cidade.

Antônia Mariano do Santos (Antonieta) era uma das lavadeiras mais conhecidas de Maranguape. Durante mais de 30 anos fez um longo percurso de sua morada, no bairro do Coité, até o sopé da serra.

“Graças à lavagem de roupa criei meus seis filhos e consegui comprar um terreno para construir minha casa”. O marido não tinha emprego fixo. O dinheiro que entrava no bolso dele era de um chamado aqui e outro ali. Na sala de sua casa, sentada na cadeira de balanço, a lavadeira de minha mãe contou como foram seus dias de trabalho com alegria estampada no rosto. “Eu era a primeira a chegar à beira do rio. Levantava cedinho, fazia meu café e saía para pegar as roupas nas casas”. Corpo franzino, pele queimada do sol, o rosto parecia um tomate vermelho. Era assim que eu via a lavadeira que tinha seus dias acertados com as freguesas. Por muito tempo, ela cuidou de nossa roupa. Minha mãe soltava elogios a torto e a direito e repetia sempre: “Quando a “Tonieta” chega na janela, a gente sente o cheiro de roupa limpa e quarada no sol”.
Com mais de 80, dona de uma supermemória, a lavadeira de roupa lembrou como fazia para chegar as águas do rio. Primeiro eu jogava a trouxa por debaixo da cerca. Depois era a minha vez de passar e aí caminhava por uma trilha cheia de mato até chegar no meu cantinho. Cada uma tinha sua pedra. Nós todas respeitava o canto da outra”. Martinha, Dona Ana, Dona Conceição, a chará Antonieta são outras lavadeiras da época que permanecem vivas em sua mente . E quando tudo vira recordação vem os nomes de Dona Maria, Edite e Isa Nunes, D. Vanci, Jacinta Mota, Aparecida, D. Beliza, Teinha Bessa, Nivanda Mota, Zebina, Nair e Valdelice, as freguesas inesquecíveis. Gratidão também para D. Mercês, a moradora da serra que levava merenda para as lavadeiras do rio. “Ela era muito boa pra gente. Enquanto nós descansava, ela ia deixar comida, cafezinho e aí nós lavava algumas roupas dela”, frisou Antonieta.


Debaixo de sol, debaixo de chuva, as lavadeiras ganharam a vida saindo cedinho e retornando à tarde com toda roupa enxuta, branquinha, cheirando a sabão pavão e de coco, os mais conhecidos naquela época. “Eu lembro as barras grandes de sabão que as patroas entregavam na saída”, disse. Elas trabalhavam em grupo. À beira do rio, sentadas sobre uma pedra, esfregavam as peças, batiam a roupa em outra pedra, colocavam para quarar e depois de dar mais uma esfregada é que colocavam no sol para secar, aproveitando as rochas e cercas de arames. Eu perguntei a “Tonha” se ela gostava do que fazia naquela época. A resposta veio o mais rápido. “Gostava demais. Todas as mulheres pra quem eu lavava roupa pagavam direitinho. Com o dinheiro, eu passava na budega comprava açúcar, café e alguma coisa que estava faltando em casa. Quando eu não ía pro rio pra ganhar meu tostão, eu me aperreava”.

Dona Maria do Carmo dos Santos Ferreira, 93, é outra lavadeira das antigas que hoje está na cadeira de roda por conta da artrose, mas sua memória é excepcional. Ela me contou como levou a vida abraçando o ofício. Casada, mãe de dez filhos é mais um exemplo de mulher valente. Uma combatente que venceu muitas dificuldades e foi a lavagem de roupa que garantiu o sustento da família. A lágrima desceu quando falou do choro dos filhos, porque não tinham dinheiro para comprar caderno, livro, meia e sapato para ir à escola. “Eu tinha de comprar o que comer. Lavei roupa no Pitancó, Pirapora, Escorrego. Todo santo dia saía de casa com menino debaixo do braço. Levava até os que já andavam, porque não tinha com quem deixar as crianças. Meu marido não tinha emprego certo. Foi muito difícil. A vida só melhorou quando meu filho começou a trabalhar na J. Macedo.” Mulher de fibra. Até os 90 fazia suas caminhadas e atividade física nos equipamentos da pracinha. “Se eu fosse boa, ainda estava trabalhando.” Ressalta.

Maria José Braga dos Santos (74). Esta, eu lembro muito bem quando vinha chegando na Major Agostinho com a trouxa de roupa na cabeça. Uma morena esbelta, que chamava atenção quando passava, pois tinha cintura fina, delgada e o bum bum arrebitado, hahaha. Por muito tempo lavou nossas roupas. Acompanhou sua mãe nessa tarefa desde os 15 anos. “ A gente saía da casa às seis e meia da manhã e ficava na porta das patroas esperando para pegar as roupas. Minha mãe tinha clientes certas. Dona Ilca, dona Leide, dona Maria Nunes, dona Edith e pra muita gente chick”, diz cheia de vaidade. “Era tão bom naquela época. Dona Ana e Maria Coco eram as outras mulheres que lavavam roupas no Rio Pirapora. Quando a água estava muito suja, a gente subia mais um pouco a serra”.

A Maria guarda boas lembranças. Ela me contou que enquanto as mães lavavam e esfregavam a roupa na beira do rio, as crianças brincavam de anel, esconde esconde, faziam casinha pegando melão das moitas e se distraíam com a brincadeira preferida das meninas: o guizado. Quando colocavam as roupas para enxugar, as mulheres colocavam as crianças numa roda, contavam suas histórias de vida e explicavam porque a meninada estava ali também. “Naquele tempo, a honestidade predominava. As mães não sabiam muito, mas conversavam com os filhos contando as dificuldades delas”. A Maria José é mais uma Maria que ajudou a mãe e ao marido nas obrigações da casa com o dinheiro da lavagem de roupa superando as dificuldades.
Os caminhos percorridos até os rios– A curiosidade me levou aos caminhos percorridos pelas lavadeiras de Maranguape até as margens dos rios que lhe ofereciam oportunidade de trabalho. Saí em direção ao Pitancó, nome contínuo na boca das lavadeiras. A Maria, cheia de energia, fez questão de rever os lugares por onde passou. Pegamos o roteiro da Ponte da Preguiça, onde também muitas mulheres da área aproveitavam a passagem da água embaixo para lavar as roupas de casa.

Um caminho inspirador. Encontrei uma vila sossegada construída no ano de 1940.

A estrada é um calçamento que forma belo cenário com árvores verdes e muitas folhas secas no chão, decorando a cerca de madeira e arame.

Encontrei na Vila São José a D. Hilda da Costa (86), moradora dali há 40 anos. “Minha mãe lavava as roupas dos filhos e neto ali no rio. O riacho tinha umas cacimbas que eram uma beleza pra gente tomar banho e eu via todo o movimento delas quando chegavam com as trouxas na cabeça”.

Andei um pouco mais tentando encontrar gente que me contasse como era a vida das lavadeiras por ali. Chegamos no Sitio São Paulo, propriedade do Sr. José Oilton e D Silvandira, casal com mais de 90, que desfruta nesse recanto, o silencio da serra e a beleza dos Flaboyants. O Sr. Oilton descreveu assim: “eram duas barragens que ficavam nas terras dos Pratas e Bittencourt. A distância de uma para outra era de 50 metros. Debaixo tinha um lajedo. A estrada era um corredor largo. Era tudo aberto e não tinha proibição para as lavadeiras”. As lavadeiras eram gente humilde que convivia com a família de suas freguesas e sempre deixavam boas lembranças. A filha do Senhor Oilton, Cristina Dias, falou com carinho da Neuza, a mulher que lavava e engomava para a família. “A Neuza morava distante e por isso vinha pra dormir lá em casa. A noite, ela contava histórias bem alegres e de seus antepassados. Eu achava muito bom”. E com um riso no rosto acrescentou! “ A Minha bisavó paterna foi lavadeira também. Ela morava no alto do cemitério e lavava as roupas da mãe do Chico Anysio, D. Aidê, que morava ali pertinho”. Eu gostei de saber dessa história.

O riacho não era só o local de trabalho das lavadeiras, mas também um ponto de encontro, lugar de fazer amizades, de cantar, rir, conversar sobre as histórias de suas vidas; era o lazer para as crianças que acompanhavam as mamis. A lavagem de roupa foi desaparecendo com a implantação das redes de abastecimento e quando as donas de casa foram inserindo a atividade nas tarefes domiciliares. Outros fatores que contribuíram para isso foram o avanço da tecnologia trazendo a máquina de lavar e a criação das lavanderias comunitárias como opção para garantir a preservação e revitalização dos mananciais. De outra forma, promover a geração de emprego e renda para as famílias.

Estamos no Século XXI e aqui estou pra dizer a vocês como me veio a ideia de escrever sobre essas guerreiras. Nesse tempo de pandemia, minha primeira tarefa do dia é assumir a lavanderia de casa para higienizar máscaras e lavar algumas peças que são impedidas de ir à máquina. Estender no varal, recolher tudo isso tem sido esgotante. Imaginem o dia-a-dia de uma lavadeira, depois de um dia de sol, descer a serra com uma trouxa de roupa na cabeça na ânsia de pegar um prato de feijão com arroz!!!! Palmas pra vocês: Antonieta, D. Maria do Carmo, D. Conceição, D. Ana Luiza, Maria José Braga… , pois lavar e cuidar das roupas foi e sempre será uma das mais importantes atividades domésticas.
A todas as mulheres do mundo inteiro FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER, 8 DE MARÇO
Vou deixar aqui alguns clicks feitos no caminho que essas mulheres percorriam diariamente. Amei sair subindo e descendo serra passando por coisas belas,simples e inusitadas.























Até o próximo encontro, aqui nesse cantinho! Fiquem comigo!

Muito bom. Aguardados com ansiedade, preserva a historia do nosso querido municipio. Infelizmente, poucas pessoas tem se interessado por recolher esses fragmentos de nossas vidas e publica-las. Talvez também, como leitores, estejamos perdendo o interesse pelo passado, pelas historias e até mesmo pelos nossos entesqueridos, é um fenômeno de nossos tempos.
CurtirCurtir
É muito gostoso ouvir as pessoas que contam pra gente as coisas boas que viveram no passado. Elas se emocionam e nos encantam.
CurtirCurtir