Memórias do Casarão Branco

A cada caminhada nasce uma contação de história. Ao passar pela calçada do velho Casarão Branco de minha rua, vi aberto o portão que dava acesso ao jardim. Avistei lá no fundo um homem fazendo reparos na estrutura. Parei ali e lembrei do tempo em que brincávamos na calçada e da curiosidade da meninada de conhecer por dentro a casa de sobrado , n° 503 , da Rua Major Agostinho.

O casarão pertencia a uma família pequena, rica e bem recatada.Não sei qual é o ano de sua edificação, só sei que quando chegamos na Major Agostinho na década de 60, ele já estava lá com toda sua imponência ocupando canto do lado do sol.

Estacionei na lateral da residência, de estilo eclético, observando a fileira de janelas basculantes, altas e amplas, os batentes com quinas arredondadas e os detalhes das varandas do sobrado e da porta no térreo, oferecendo um charme inigualável à morada.

Quando menina fui muitas vezes no casarão silencioso que vivia de portas trancadas. Eu ía comprar banana, coco verde e seco para minha mãe fazer os bolos dela. Um pretexto perfeito para ser convidada a conhecer a majestosa casa, mas a moça de estatura baixa, olhos grandes e azuis, herdeira do casal, vinha atender a porta e muitas vezes só abria as bandeirolas para saber o que era e nos deixava esperando fora. Ali já não tinha mais chance de visitar o imóvel e matar a minha curiosidade.

Os donos abastados tinham propriedade/ sítio na serra de Maranguape e aproveitavam para vender o que de bom suas terras davam. Dona Graziela era uma mulher de pele branca, cabelos grisalhos e rosto bonito. Se dava muito bem com minha mãe e só mais umas três ou quatro famílias da rua. Vivia muito na dela , quase não saía de casa, mas era uma boa vizinha.

A natureza se apossa da fachada e dá vida ao casarão

O casarão não tinha uma decoração requintada. Simplicidade era a essência dele. No rol de entrada do térreo tinham várias cadeiras de balanço em palha e vime. Uma porta à esquerda dava acesso à sala do piano da filha Zaida. Até aí eu consegui chegar. Em cima do piano um porta retrato exibia a foto da moça com muita elegância e beleza. Acredito que todo aquele capricho foi da Ligia, a prima que fazia fotos de stúdio na cidade. Cadeiras e uma namoradeira, em madeira e palhinha, faziam a composição da sala. Era tudo muito a cara da família.

Da sala do piano, todos os dias, a tímida e calada herdeira abria a porta da varanda que dava para rua e passava horas e horas debruçada olhando o movimento dos passantes e carros que transitavam. Às vezes pela manhã ou fim de tarde. Talvez sua única diversão. O que ela não gostava mesmo era da bola dos meninos quando batia na sua porta. Ficava muito zangada!

O casarão guardou a história e o segredo da família mantendo suas portas fechadas numa época em que os moradores da cidade usufruíam do privilégio de escancarar portas e janelas, sem grades e sem nada, para deixar o sol entrar e como hábito armar as redes na sala para tirar aquele sono depois do almoço, sem se preocupar com o risco de invasão por pessoas estranhas. Era assim lá em casa todos os dias.

Com o falecimento dos pais, a única filha viveu ainda um bocado de anos na charmosa casa. Depois de sua partida para a eternidade, as portas foram cerradas. Nossa esperança é de um dia ver o imóvel vestido de branco e amarelo como antes, e dessa vez com as portas abertas e luzes acesas fazendo reluzir o outro lado da rua.

Essa é a lembrança que tenho do casarão da dona Graziela como era conhecido pela comunidade.

See you later!

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