O difícil caminho de volta do Balneário Pirapora Pálace

Quem lembra dos finais de semana em Maranguape nas décadas de 70 e 80, tempos em que funcionava o Balneário Pirapora Pálace? Era uma das melhores opções de lazer dos maranguapenses, que atraía turistas, hospedava artistas e recebia muitos visitantes da Capital e outras cidades vizinhas. O empreendimento funcionava como um atrativo turístico que movimentava a economia, gerava emprego, renda e dinamizava a vida da cidade.

Balneário

Foto: NeideNunes

O Balneário Pirapora Pálace foi inaugurado oficialmente em 1972. Cercado pela natureza, entre o barulho de quedas d’água, estava o conjunto arquitetônico formado por um bloco de apartamentos (cerca de 122) e mais quatro apts.duplos (presidenciáveis), restaurante, piscinas, campos de esporte, salão social com TV, parque infantil e um encantado bosque com piscina de água natural.  O empreendimento de José Alcy Siqueira,maior do Nordeste, orçado na época por um bilhão, se tornou uma das maiores atrações turísticas do Estado nos anos 70. Os visitantes e hóspedes pertenciam a uma classe de elite. O acesso era praticamente restrito à sociedade de Maranguape, porque como outras estâncias, o balneário tinha os seus critérios, o seu regulamento, os sócios de carteiras e nem todas as famílias possuíam condições de usufruir do hotel de lazer.

40131358_988117788041698_6473275584980975616_n

Foto: Cedida por Paulo Roberto Neves

O auge do balneário foi exatamente na época em que nós, jovens e adolescentes, dávamos tudo pra viver um sábado e um domingo nas bicas, cascatas, cachoeiras da serra, opções de lazer que estavam a nossa disposição. A escolha não era só para se deliciar nas águas geladas, onde se podia tomar aquele merecido banho, mas essencialmente, pegar um tom bronzeado. Isso era o máximo da moda. O banho de sol influenciava nas roupas e queríamos nos sentir bonitas pra exibir na praça a cor dourada da pele. Uma temporada de juvenilidade e longe ainda de se falar dos riscos da superexposição ao sol, efeitos e perigos da radiação solar.

40011747_691496087871406_7573506155922587648_n

Foto: Imagens do Google

Ah, se eu fosse buscar depoimentos de pessoas que guardam boas lembranças do Balneário Pirapora Pálace, iria encher muitas páginas do site. O lugar traz lembranças de férias inesquecíveis, alguém guarda recordação da noite de núpcias, tem gente que ainda sente o cheiro da mata na subida da serra; a imagem do piano do Salão Principal ainda está estampada na memória de um amiga, as piscinas azuis e o cheiro de cloro, a boate, a sauna, os banheiros muito limpos, a pedra que pulava para cair na piscina do bosque, as festas promovidas, a visita do cantor Márcio Greyck, sucesso dos anos 70; a vinda do  humorista Renato Aragão, a passagem do cantor Gilberto Gil por lá, e tantos outros eventos que culminaram ali. Só reminiscências da juventude que jamais serão apagadas da memória. Aqui foi só um abraço às boas lembranças, revivendo toda felicidade já vivida. Viremos à página e voltemos à história.

Em 1982, dez anos depois de inaugurado, após uma seca que durou cinco anos, o Riacho Pirapora secou e o  hotel enfrentou um período de decadência. Acabou cerrando suas portas.

A reativação do balneário aconteceu com o Clube de Diretores Lojistas. Foi uma das metas da 1ª gestão de Paulo Roberto Neves (1988/1989), atrelada à ideia de preservação da serra, para que Maranguape desenvolvesse seu potencial turístico. Na época, estava em discussão à localização do Hotel Escola do Governo do Estado e a Autarquia da Região Metropolitana de Fortaleza (AUMEF) havia elaborado um projeto muito dispendioso para o Pirapora. “Quis demonstrar que a restauração e preservação arquitetônica do projeto original era viável”, disse Paulo Neves. Mas os projetos municipais, voltados para o resgate do artesanato e feira de comercialização, não alavancaram e não foram mantidos como geradores de fluxo, bem como as questões de infraestrutura e proteção ambiental.

“Ainda, na tentativa de conquistar o Hotel Escola para funcionar no prédio do balneário, criamos a Mapetur Empreendimentos Turísticos e uma agência de turismo que explorava o Circuito Maciço do Baturité, abrangendo 11 municípios no roteiro, iniciando sempre às sextas-feiras em Maranguape com animação turística noturna e compras no mercado aos sábados pela manhã”, acrescentou Paulo Neves. Mas a decisão do Governo do Estado recaiu em Guaramiranga.

No ano de 1989, o balneário é reinaugurado. Ele desperta colocando em pleno funcionamento uma das nove alas do primeiro pavimento, com 14 apartamentos. A mobília foi arrematada, pois pertencia ao San Pedro Hotel de Fortaleza, que havia paralisado suas atividades no Centro, devido à chegada dos hotéis na Av. Beira Mar. Na condição de co-proprietário, Neves coordenou a associação dos minoritários e por ter sido nomeado administrador do incorporador, José Alcy Siqueira, colocou à disposição dos clientes  serviços de eventos, bar e restaurante. Depois executou a restauração de outras quatro alas desincorporadas, totalizando 56 apartamentos, onde cerca de 20 funcionavam como flats.

As dificuldades encontradas foram as mesmas que determinaram a interrupção em 1982: escassez e desvio de água do leito do Riacho Pirapora, carência de  capacidade elétrica instalada, ausência  e promoção turística no Município, agravada com as dificuldades de acesso resultante de dezenas de quebra molas no percurso de Fortaleza e dentro de Maranguape.

BALNEARIO 2

“Nós superamos tudo isso com criatividade, agindo com promoções e realizando congressos N/NE. Assim, fomos mantendo o hotel até o ano de 1991”. Nesse decorrer, surge uma proposta comercial do empresário Omar do Carmo, que inclusive era hóspede mensalista do Pirapora Hotel de Serra . E a transferência do cargo para o empresário ocorreu em 1992.  Seis meses depois, por falta de consenso entre o novo administrador e o incorporador José Alcy, o Pirapora Hotel de Serra paralisou suas ações definitivamente. Vale ressaltar que no auge da fama, o “ Balneário Pirapora Pálace” recebeu dois prêmios internacionais de hotelaria e turismo da América do Sul.

Com a implantação do Plano Municipal de Turismo, na administração do ex-prefeito Marcelo Silva, surge uma nova luz no fim do túnel para reavivar o balneário, mas a  impossibilidade de reunir os vários proprietários  e a falta de harmonia entre os acionistas com maiores cotas, foram os gargalhos que impediram as discussões e a tomada de decisão em favorecimento da volta do equipamento.

Atualmente, o Balneário Pirapora Pálace, uma estrutura de grande potencial para abrigar um empreendimento, está em situação de decadência e abandono. As instalações foram invadidas por grupos, pelo cupim, pelo mato, pelo descaso, pelas pichações e pela ocupação irregular.

Balneário 2 (1) (1)

Foto: Neide Nunes

Hotel Balneário Pirapora

O Hotel Balneário Pirapora nasceu na década de 30. O autor do projeto original foi Emílio Hinko, arquiteto que desenhou também grandes obras arquitetônicas do século passado, a exemplo do Edifício Excelsior, no centro de Fortaleza. Construído dentro da floresta era um dos pontos turísticos mais bem frequentados de Maranguape. Sua inauguração se deu em 04 de março de 1937. Associaram-se ao negócio Francisco Sabóia , José Moacir Bezerra  e Robert Braquehais. A cerimônia de inauguração contou com as presenças do presidente da Assembléia Legislativa , Dr. César Cals de Oliveira, prefeito Municipal Paulo Campos Telles, e representantes da imprensa da capital. A benção das instalações foi dada pelo monsenhor José Quinderé e para falar em nome dos proprietários foi convidado o farmacêutico, Pedro Gomes de Matos.

balne

Foto de arquivo cedida por Sérgio Roberto da Silva (autor não identificado)

O Hotel Balneário Pirapora era constituído por alguns chalés, que posteriormente foram substituídos por um hotel ainda rústico que resistiu até os anos 60. No final dessa década iniciaram a construção do Balneário  Pirapora  Pálace, que por muito tempo se tornou uma referência de lazer para o povo de Maranguape, cidades adjacentes e capital.

 40139834_277513869743005_3572498602188079104_n

Foto : imagens do Google

Gente, eu confesso que vi tudo isso acontecer (fase do Balneário Pirapora Pálace), mas não me dei conta do futuro. Nunca pensei que um dia poderia sentar para escrever essa história com tanto constrangimento. Saber que aquele prédio glamouroso e que cintilou nos anos 30 e 70, está agora ofuscado, se perdendo no meio da floresta e do tempo, quando na realidade poderia ser o elemento chave para o desenvolvimento do turismo de Maranguape.

Vou ficando por aqui. Quem sabe um dia, né !!!!! Como diz Renato Russo “ Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mas uma vez eu sei…quem acredita sempre alcança…”

Until next post!!!!

Fontes:

Livro: Maranguape Ceará (Aspectos Históricos-Geográficos) Pedro Gomes de Matos (2ª Edição)

Livro: Maranguape (Edição Escolar) Juarez Leitão

Entrevista: Paulo Roberto Neves

Entrevista: Ex-prefeito de Maranguape Marcelo Silva

Entrevista: Zezé Mendes, Mena Nunes, Selma Mesquita, Tácia Braga, Clébia Nunes, (frequentadoras do Balneário)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários sobre “O difícil caminho de volta do Balneário Pirapora Pálace

  1. Sou fortalezense, porém vim morar no Pará a mais de quarenta anos com meus pais.
    Venho elogiar o excelente texto sobre o Pirapora palace Hotel, que representa uma parte valorosa de lembranças de toda a minha infância, na qual desfrutei bastante das cascatas, piscinas e tudo o que proporcionava.
    Passei inúmeros finais de semanas hospedado com meus pais e irmão, eu adorava….
    Ainda jovem meu pai foi transferido de Fortaleza, deixando assim de frequentar e de ter notícias.
    Em 2008, numa ida a Fortaleza resolvi retornar lá para almoçar e mostrar pra minha esposa o lugar que tanto falava da minha infância, aluguei um carro, fui em Maranguape e na cidade fui perguntando qual era o acesso….Ao subir as ladeiras percebi que não havia placas informativas, achei estranho….e mais acima parei, perguntei para uma senhora local, aonde ficava o hotel, ainda na esperança de ser mais acima, e ela me respondeu;
    – Hotel ??Aqui não tem, havia um antigo, mas que está fechado a vários anos, é logo ali embaixo ….
    Eu havia passado por ele sem perceber, manobrei o carro, desci um pouco a ladeira,
    ao visualizar a estrutura em ruínas…tive uma mistura de sentimentos….que nem sei explicar !!
    Desci do carro, tirei várias fotos, com o sentimento incrédulo de saudade e inconformação, parecia imagem pós guerra.
    Foi quando minha esposa depois de passado alguns minutos, respeitando o meu momento, me perguntou;
    – Você ainda tem algum lugar do passado que queira visitar ?
    Parabéns pelo seu texto!! Muito obrigado !!

    Curtir

    1. Olá! Obrigada pelo seu elogio Nós também sentimos muito a perda do Balneário Pirapora Pálace. Poderia ter tido um futuro melhor e proporcionado uma cidade com mais fluxo turístico e consequentemente com mais geração de renda

      Curtir

Deixar mensagem para Manuel Damasceno Cancelar resposta