Olá amigos! A cidade de Maranguape está de parabéns neste 17 de novembro, por isso vou presenteá-la no aniversário de 167 anos com o post de uma das mais belas casas e mais bonitas histórias de uma família que trouxe turistas para a cidade, gerou emprego e renda com o artesanato na arte do bordado, e prestou valiosa contribuição à educação na escola pública de Maranguape.
O atraente casarão cor de rosa fica no cruzamento da Rua Major Agostinho com Coronel Afro Campos. Nesse entroncamento, nos deparamos com outros pomposos prédios como o Solar Bonifácio Câmara, a Sociedade Artística e a antiga residência dos Mouras. Juntos formam um cenário espetacular com a natureza, desenhada na gigante e imponente serra, oferecendo uma aprazível paisagem a quem observa do nascente para o poente.
Por muitas décadas, o casarão de nº 500 permaneceu vestido de branco, a cor que os proprietários preservavam nas paredes bordadas da fachada. A habitação apresenta uma mistura de estilos; tem caráter de estância com características do Período Colonial. Outro estilo aparente é o Neoclássico notado nas balaustradas e colunas. A figura das conchas e as ondulações na fachada foi ideia de Dona Nair , um jeito de validar sua paixão pelo mar. Até hoje, a residência eclética atrai olhares curiosos, encantando muita gente que passa em frente e fica pestanejando como se planejasse a futura casa dos sonhos.
A morada que o senhor Jeová Matos, funcionário público federal, e dona Nair Matos, mulher de prendas domésticas, escolheram para acomodar a família foi adquirida no ano de 1949 da Congregação de Nossa Senhora do Amparo, Ordem Religiosa com sede em Petrópolis. Eis aí, a primeira sede do Colégio Santa Rita com pretensão para administrar o curso infantil. As poucas irmãs do convento não tinham condições de dar cobertura às responsabilidades da ampla casa. A decisão da madre Serafina, responsável pela Ordem, foi de vender o imóvel para o Sr. Jeová por quase 90 contos. Antes das freiras, a mansão pertenceu ao Sr. Luiz Tibúrcio Cavalcanti, que comprou do chefe politico de Maranguape, coronel Antônio Botelho, que obteve à residência através do Sr. Manoel Alcântara Uchoa, que adquiriu o imóvel em julho de 1936, ainda em obras. Simone lembra de um fato curioso que lhes deram a certeza do período de construção da casa. “Durante obras de reforma encontramos uma garrafa de Capivarol enterrada num dos cômodos da propriedade . Dentro, um papel todo enrolado.Quando tiramos, estava a data que ela foi erguida: ano de1876 ”. Antigamente era um hábito costumeiro enterrar objetos de valor. Estão curiosos para saber onde a garrafa se encontra hoje ? “Voltou para o mesmo cantinho”, asseverou Hélvia.
Erguido numa área de 743 metros quadrados, o casarão construído de tijolo e telhas, tem cinco portas avarandadas de frente, olhando para o nascente; é alpendrado pelo lado do norte e possui um portão de ferro que serve de entrada. Árvores frondosas e frutíferas como a mangueira e goiabeira e a construção de uma fonte de água bem no meio do jardim, deixam o ambiente aconchegante e fresco. Os balaústres de cimento armado são um charme. Por suas brechas permitem que atravessem os olhares entusiasmados de quem quer descobrir os segredos ali guardados. O muro se estende até a Rua 13 de Maio, mas parte dele foi demolido para a construção das casas das filhas, Guaracy, Simone e Hélvia.
Muitas histórias de afeto, construção e sucesso brotaram de dentro do domicílio da Família Cavalcante Matos, uma das tradicionais de Maranguape. As 10 filhas enveredaram pelo lado da Educação e deram incomensurável colaboração às escolas públicas. Unidas, somaram forças ao trabalho da matriarca, que fabricava as mais belas e finas peças bordadas em artigos de cama, mesa e banho. As românticas camisolas de filó, enfeitadas com rococó, eram também uma marca das Confecções RIAN, Nair ao contrário. Um negócio que cresceu no pavilhão industrial, edificado nos fundos do imóvel, e que deu impulso ao desenvolvimento econômico da cidade. As peças saíam para todos os estados do Brasil e eram exportadas para Colômbia, Ásia e Coréia. Diariamente vinham da Capital, ônibus e táxis com turistas, gente nova para conhecer a cidade e comprar o artesanato de luxo, feito por mãos de fadas, ou melhor, pelas mulheres bordadeiras de Maranguape. A geração de emprego e renda estava plantada dentro da mansão. “Vendemos muito. Era impressionante”, diz Hélvia Matos.
Vou contar uma boa e doce recordação do dono da simpática residência, o mais conhecido vovô Jeová. Homem alto, pele clara, usava uma bengala para apoiar-se. Acredito que um hobby seu, após aposentadoria, era o passeio que fazia pelo centro comercial e Praça Capistrano de Abreu todas as manhãs e tardes. Assinava ponto sentado na calçada ou do lado de dentro dos balaústres com os bolsos e mãos cheias de balinhas para mimar as crianças que passavam pela rua. Era assim todos os dias e a meninada fazia questão de estender a mão quando via o vovô dos bombons, das balas softs e do refrescante piper, lembro muito bem disso.
Como moradora da Major Agostinho posso dizer que vivi grandes momentos de minha infância debaixo desse teto. Era na casa da Dona Nair que tínhamos a permissão de assistir aos programas da TV preto e branco, porque o aparelho que era novidade ainda não estava ao alcance de todos. O período de férias era uma festa só com a chegada dos netos que moravam em Juazeiro do Norte e na Capital. A casa ficava iluminada e nutrida de meninos. Ali, criávamos brincadeiras e alimentávamos sonhos como andar equilibradamente em cima do parapeito da casa, escorregar no corrimão dos batentes da entrada principal, brincar de esconde esconde, 31 Batido…
Dona Nair, a dona do casarão era uma mulher de fibra. Mãe forte, poderosa e empreendedora. Católica, cumpria seus dias de missa com o terço e um livrinho na mão. Era assim que descia o alto da Major Agostinho para ir à igreja. O véu de renda na cabeça era imprescindível. Sua beleza chamava atenção. Fez da elegância o cartão de visita de sua vida. Abriu as portas de sua propriedade para os ensinamentos religiosos, através das aulas de catecismo ministradas pela filha Edna. Fui uma de suas discípulas na preparação para o 1º Encontro com Jesus Cristo – minha Primeira Comunhão. Com o apoio de Dona Edna, a família cedeu espaço no galpão da fábrica para as reuniões do nosso grupo de jovens denominado JUSM (Jovens Unidos Servindo Maranguape). Os ensaios das músicas que seriam cantadas nos dias de sábado, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha, também aconteciam ali. Dona Edna nos acompanhava nessa missão.
A casa rosada ou casa da Barbie como muitos a chamam carinhosamente hoje, é um lugar de muitos sonhos sonhados, muitas conquistas e muitas vidas compartilhadas. Que essa narrativa contada à base de feeling, fique guardada PARA SEMPRE, na memória de todas as gerações de Maranguape.
De acordo com a família o imóvel não é tombado pelo Patrimônio Histórico da cidade.
Fontes:
Entrevista com Hélvia, Simone, Guaracy e Edna Matos;
Pesquisa de Busca no Cartório Paula Costa
Consulta a arquiteta Nivea Lopes
Material de arquivo do colecionador Sérgio Silva (Golinha)
Agradecimentos a todos e à Fátima Façanha (funcionária do Cartório Paula Costa)

Simplesmente fantástica, essa matéria!
Parabens!
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Uma bela casa com muitas histórias. O incrível é que mesmo sem a conservação necessária ,ela ainda chama atenção de quem chega na rua e de q quem passa. SOS
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