Os pioneiros da indústria têxtil em Maranguape

Bonjour, comment allez-vous? Je vais bien.

Em meados do Século XIX e início do Século XX o Brasil foi alvo de muitas disputas no que concerne a investimentos estrangeiros. Portugueses, britânicos, franceses e judeus buscavam novos mercados e domínios com finalidades econômicas e isso levou a imigração e o estabelecimento de muitos deles em terras brasileiras. De acordo com relatos históricos foi a participação estrangeira que impulsionou o processo de industrialização no Brasil. Por volta de 1930, os ricos empresários Leon Gradvhol e Robert Gadvhol, judeus com cidadania francesa, produtores de tecidos de algodão, decidiram investir no Brasil confiantes no sucesso de uma indústria têxtil.

Cidade de Maranguape

Maranguape foi a cidade escolhida para a instalação de uma fábrica de algodãozinho da marca “Jacaré”, na época muito procurado para sacaria, lençóis e roupas rústicas . A “Fábrica Maranguape” funcionou no prédio edificado na Praça da Estação, hoje Rua Chico Anísio.

Foto: Fábrica Gradvhol (Cedida do arquivo de Sérgio Roberto da Silva-autor desconhecido)

A cultura algodoeira no Nordeste estava em expansão e contribuiu para as instalações das primeiras fábricas. Com a decisão de montar a unidade têxtil, os irmãos Gradvhol publicaram em jornal francês a notícia da seleção de currículos para a empresa de Maranguape. A vaga era para técnico em engenharia e um dos principais requisitos era o estado civil, solteiro. O francês Robert Joseph Braquehais, já havia contraído matrimônio com Jeanne Georgette Fouiolle, mesmo assim ousou. Não tinha formação superior, mas a prática de auxiliar seu pai que era técnico em tecelagem na região de Normandia, lhe rendeu saber e habilidade. Enviou currículo e participou da entrevista. Foi ele o candidato aprovado e designado para administrar a fábrica de Maranguape.

Foto: cedida pelo neto Robert Braquehais

Atravessar o Atlântico para conquistar o emprego – O desafio foi lançado e o jovem atravessou o Oceano Atlântico sozinho em busca do sonho. Deixou a mulher Jeanne na casa de sua irmã mais velha, na França, com a promessa de que se a experiência desse certo, assinaria o contrato com a empresa e mandaria buscá-la. O destino lhe pregou uma peça quando estava com menos de um ano à frente do trabalho. Robert Joseph foi acometido de Febre Amarela e ficou aos cuidados da mulher de Leon Gradvhol. Nos delírios da hipertermia, o funcionário chamava por sua esposa Jeanne e foi aí que os patrões descobriram o seu verdadeiro estado civil. A Família Gradvhol  providenciou a vinda da mulher Jeanne no navio de passageiros. Foram 30 dias de viagem até Fortaleza. Por ironia do destino quando o navio aportou na Capital, os tripulantes ficaram de quarentena esperando o fim da revolução entre as famílias Acioly e General Franco Rabelo. Lá se vão mais dez dias a bordo. Só depois desse período que Jeanne chegou ao encontro do marido. Em Maranguape nasceram os dois filhos, Huguette Braquehais e Jean Robert Braquehais, os netos e foi onde o casal viveu até os últimos dias de suas vidas. A “Madame Jeanne”, como era carinhosamente chamada pela vizinhança, nutriu forte ligação com a cidade. Segundo Huguette, ela repetia: “Marranguape é a terra da minha felicidade”.

O filho Jean Robert com os netos de Robert Joseph

A cultura algodoeira se desenvolvia rapidamente na zona rural e Maranguape tornou-se um dos principais produtores do Estado. A fábrica dos “Gradvhol” acompanhava o ritmo dessa manufatura e adquiria  matéria-prima local para a confecção de suas peças. “Eles compravam o algodão após o processo de descaroçamento. Eu lembro que o senhor Walter Lopes tinha uma fábrica de descaroçar algodão bem perto. Ele recebia o produto in natura e quando passava pelo descaroçamento, a fábrica comprava para a produção do tecido”, enfatizou Huguette.

O funcionamento da fábrica – Além de cuidar das questões administrativas, Robert Joseph (o francês de Maranguape) mantinha o olhar para o lado operacional, supervisionava o funcionamento das máquinas, o controle da produção e a confecção das peças de tecidos. No quadro de funcionários tinha mais mulheres do que homens. Elas ocupavam as máquinas de tecelagem. “Eram mulheres que precisavam trabalhar para sobreviver, porque não tinham apoio dos pais e da família e buscavam a vida até na prostituição”. Os homens eram a minoria. Tinham como principal atividade levar os fardos de peças de tecidos, cada uma delas com 20 metros, para cima dos caminhões que faziam o transporte do carregamento até o armazém da família Gradvhol, na Praia de Iracema, em Fortaleza. De lá é que os artefatos saíam para a comercialização e exportação entre os estados. O maior lucro que o algodãozinho da marca “Jacaré” deu à fábrica foi após a Segunda Guerra Mundial. Essa obtenção de sucesso dos negócios  foi muito comemorada. “Meu pai organizou uma festa nas instalações da fábrica, animada com a participação de um sanfoneiro, para todos os operários e até nossa família fez parte”, disse Huguette.

A jornada de trabalho era semanal. O pagamento dos operários se dava de acordo com a produção de cada um. O Sr. José Mota era o gerente da fábrica e responsável por essa tarefa. “Homem honesto e de muita confiança de meu pai”, afirmou Huguette. “Todos os sábados, o funcionário Francisco Soares da Silva ia pegar a grana no armazém em Fortaleza e às quatro da tarde, os operários faziam fila para receber o seu pacotinho de dinheiro”.

Produtividade – Comparando aos dias de hoje, a Gradvhol (era assim que o povo chamava) situava-se como uma empresa de produtividade média que por quase 30 anos proporcionou oportunidade à população e ao setor econômico. Acompanhou a política trabalhista da Era Vargas concedendo os direitos e fazendo justiça aos seus empregados que celebraram com alegria a conquista das regras trabalhistas aprovadas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A sua trajetória não fugiu à realidade de muitas empresas que entram em situação de crise. Um dos fatores foi a baixa na cultura do algodão. Chegou um tempo em que a fábrica tinha mais despesas do que lucros e a administração não estava conseguindo cumprir as obrigações financeiras em decorrência das dívidas. “Para não decretar falência pediram concordata, acordo com os maiores credores, assim eles iam administrando e se pagando”, observou Huguette. Mesmo na crise, os operários ficaram recebendo salário em dia. Quando o Banco Industrial declarou que não tinha mais condições de reembolsar, a fábrica decretou falência garantindo os direitos dos operários. O empreendimento passou a pertencer ao Grupo J. Macedo, que arrematou em leilão judicial dando um lance mínimo. Foi José Dias de Macedo o único arrematante. O valor arrecadado foi destinado ao pagamento de funcionários e credores. A fábrica têxtil Maranguape do grupo Gradvhol funcionou de 1930 a 1959.

Uma nova história do algodãozinho, marca “Jacaré começa em maio de 1963 com a Fábrica de Tecido Maranguape (FATEMA) do Grupo J. Macedo, mas que também teve o seu final na década de 80. O simbólico prédio ficou por muito tempo de pé numa rua bastante movimentada por veículos e transeuntes, ocultando histórias de desenvolvimento e de vidas de trabalhadores que usaram o conhecimento, a força, a garra e derramaram o suor para juntos construírem um negócio de sucesso. Há pouco tempo foi demolido e nesse terreno terá inicio uma nova história de empreendedorismo. Eu conto para vocês depois, no próximo post da série.

Área que abrigava antiga fábrica

Curiosidade

O Francês de Maranguape

Robert Joseph Braquehais – Viajou para a Europa como voluntário da Segunda Guerra Mundial para lutar pelo seu país de origem contra a tirania nazista. Voltou recebido como herói com todas as honras que a cidade lhe ofereceu. Era um cidadão descontraído. Envolvia-se com as causas sociais e desportivas da cidade. Quando a fábrica de Maranguape decretou falência foi trabalhar em Fortaleza no Restaurante Lido. O ramo não era o seu forte. Assumiu emprego em Sobral numa indústria têxtil, onde permaneceu até ser surpreendido pela doença que lhe levou ao falecimento em 1961, aos 59 anos.

À revoir !

Pesquisa: Web, Professor de História Joelcio Alves, arquivo de Sérgio Roberto (Golinha), site Maranguape Fotos, Livro Juarez Leitão.

Entrevista: com Desembargadora Huguette Braquehais , a quem deixo aqui meus agradecimentos pela colaboração, disponibilidade e atenção.

7 comentários sobre “Os pioneiros da indústria têxtil em Maranguape

  1. Excelente, Neide!
    Como é importante pra o nosso Maranguape esses seus artigos!
    Você está muito cooperando para a busca da permanência da identidade de Maranguape, tão ameaçada nesses tempos atuais!
    Vá em frente!

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    1. ok. Estou concluindo a pesquisa. Até a próxima terça-feira estarei publicando um post sobre o exercício da Fábrica de Tecidos J. Macedo em Maranguape. Abraços.

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