Sentimentos de afeto e saudade na história da Fábrica de Tecidos J.Macedo

“Todo fim tem um novo começo”. É bem comum ouvirmos esse provérbio no nosso dia a dia e é com ele que vou iniciar o post sobre a transição da Fábrica Gradvhol dos irmãos judeus-franceses, Leon e Robert Gradvhol, para a Fábrica de Tecidos Maranguape S/A (Fatema), da Indústria e Comércio J.Macedo S/A.

Ao decretar falência, no ano de 1959, a Fábrica Gradvhol foi a leilão judicial. O único participante foi o empresário José Dias Macedo. Ele deu o lance e após a batida do martelo foi declarado arrematante do imóvel. Em maio de 1963, o Grupo J. Macedo inaugurava a sua Fábrica de Tecidos Maranguape S/A (Fatema) proporcionando mais oportunidade de trabalho e geração de renda para a cidade. A direção foi composta por: José Dias Macedo, Geraldo Dias Macedo e Fernando Dias Macedo. O cargo de gerente foi confiado a Antônio Gonçalves Moreira que mais tarde se engajou na política de Maranguape a convite do deputado José Mário Barbosa e com o aval de José Dias Macedo. Eleito prefeito para o mandato 1977/1983, Antônio Gonçalves não se desligou da fábrica. Exercia o cargo de Chefe da Municipalidade pela manhã e à tarde gerenciava a unidade têxtil.

O Grupo J. Macedo, pioneiro na indústria do trigo no Ceará com o Moinho Fortaleza processando sua própria farinha de trigo, fazia planos de expansão empresarial. A estratégia era a implantação de novos moinhos em outros estados como Alagoas e Bahia. A aquisição da fábrica funcionaria como um bom negócio, porque com a unidade têxtil o grupo iria produzir tecidos de algodão para sacaria, usada para acondicionar a produção dos moinhos de trigo comercializada pelo país. A obtenção de lucros era a principal meta. Portanto, quanto mais moinhos, mais sacos e consequentemente mais lucros.

 Os ventos ainda conspiraram a favor. Trouxe o interesse das pessoas com poucas condições financeiras de utilizar os sacos de algodãozinho na confecção de roupas rústicas e lençóis, isso porque, além de seguir para os moinhos, a Fatema recebia muitos pedidos de sacaria por parte dos donos de engenho. Foi um outro fator positivo que refletiu no ganho dos comerciantes de mercearias. Eles vendiam o açúcar e a embalagem.

Fachada da frente pela Rua Chico Anísio

Sem experiência em fiação e tecelagem o Grupo J. Macedo mandou buscar operários fora para implantar a Fatema. Vieram homens de Pernambuco, Alagoas e Paraíba com a finalidade de preparar os funcionários de Maranguape. “O responsável pela tecelagem era um alagoano. Foi quem me trouxe de volta para Maranguape, pois havíamos trabalhado juntos na Fábrica Santa Cecília em Fortaleza e ele sabia que eu tinha experiência e curso profissional de tecelão pelo Serviço Nacional da Indústria (SENAI), possuía prática em fiação, maquinário e conhecimento em legislação trabalhista. Fui convidado a ensinar aos operários que estavam sendo contratados”, disse Francisco Nunes de Moura, conhecido popularmente por Chico Caboco ou Chico Maranguape. Ex-funcionário da Gradvhol, de 1952 a 1959, assumiu a tecelagem e colaborava com as ações trabalhistas da empresa. “Eu tinha carta branca do Sr. Antônio Gonçalves e do Sr. José Dias Macedo para resolver todos os problemas de legislação”, pontuou.

Lateral da Fábrica de Tecido pela Rua Capitão Manuel Bandeira

Maranguape era um dos grandes produtores de algodão, o chamado Ouro Branco no Ceará. “Tivemos épocas de muitos pedidos. A fábrica comprava algodão das usinas de Maranguape que era de primeira qualidade. Um tipo de algodão de fibra larga que seguia até para a Europa”, disse Nunes. A Jornada de trabalho era de oito horas, mas para atender um maior volume de pedidos, num determinado período, foi preciso escalar os operários em dois turnos de doze horas cada. “O que gerou muito falatório entre eles. Negociei com o patrão e assim garantimos a merenda extra para os colaboradores do turno da noite e melhoria salarial. Deu certo. Entregamos a demanda antes do prazo estabelecido e voltamos ao horário normal de oito horas”. Ainda segundo Nunes, foi num desses momentos de discussão que o Sr. José Dias Macedo chamou-o e perguntou se não estava na hora de fundar um sindicato de fiação e tecelagem em Maranguape, ao qual daria todo o seu apoio.

A fábrica vista pela Rua Chico Anísio

A fundação do sindicato seria uma mão na roda para solucionar de imediato as questões laborais que eram resolvidas em Fortaleza ou através de ofício enviado ao juiz do Trabalho de Maranguape. Em 1968 nasceu o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Maranguape (mais tarde englobando Maracanaú), com sede na Rua Dom Joaquim, cujo aluguel ficou sob a responsabilidade da J. Macedo até o ano de 1974. “Logo associamos operários, pois havia um grande polo de fábricas de fiação e tecelagem em Maranguape”, comentou Francisco Nunes. O contramestre de obra da Fatema, Ribamar Lima, também fez parte do sindicato e lembra: “quem entrava na J. Macedo assinava a proposta de sócio do sindicato com contribuição obrigatória de 1% do seu salário”.

PP

Solenidade de posse da diretoria do Sindicato em 25 de outubro de 1972

Posse da diretoria do Sindicato em 25 de outubro de 1975

Francisco Nunes ocupou a presidência do sindicato por 20 anos; vice-presidência por 16 anos e esteve nove anos como diretor de Educação e Previdência Social. Quando foi nomeado interventor do Círculo Operário de Maranguape e por este trabalhar em conjunto com as organizações sindicais, Nunes decidiu que os dois iriam funcionar em uma única sede, e assim entregou a chave da casa a J. Dias Macedo. “Sempre houve uma boa relação entre a empresa e o sindicato que lutava pelos direitos dos empregados. O clima era de confiança ”, arrematou Nunes.

Solenidade de posse da diretoria do Sindicato em 1978

Capacitação profissional- Os operários da Fatema recebiam capacitação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). O órgão preparava mestre e contramestre para melhor desempenho de suas atividades. Ribamar foi um dos funcionários que teve a oportunidade de auferir conhecimento na empresa. Arrimo de família, ingressou aos 13 anos no trabalho. Por conta da idade não tinha carteira assinada, mas batia ponto, assinava folha e contribuía com o INSS. Começou na varrição do prédio, mas com vontade de aprender , aproveitou o tempo dentro da fábrica treinando várias funções. Quando terminou o Segundo Grau em Contabilidade sonhou em montar um escritório autônomo, mas agarrou a chance que a Fatema lhe deu para fazer um curso de Operador de Mestre, num período de seis meses, em Recife. Representou a empresa com brilho sendo destaque Norte/Nordeste entre os 42 participantes. Qualificado passou a administrar 58 tears (aparelho mecânico para fins de tecelagem), metade dos existentes na fábrica, chefiou operários sempre atento para garantir a disciplina e a produtividade. Como ele, outros operários também tiveram a possibilidade de melhorar sua performance na “MÃE MACEDO”, pois é assim que os ex-funcionários evocam à empresa que deu a mão e ajudou a sustentar muitas famílias no Município, tratando o trabalhador com respeito e humanização. Aplausos para o gerente Antônio Gonçalves Moreira, patrão refinado que sabia lidar com maturidade às causas da empresa,. “O Sr. Antônio Gonçalves nunca chamou atenção de um funcionário antes de saber o que tinha acontecido”, disse Socorro Mendes Benevides, que esteve na fábrica de tecidos como escriturária e tesoureira no período de 1972 a 1984

Família que recebeu o apoio do ex-contramestre da Fábrica de Tecidos Maranguape S/A , Ribamar Lima (blusa listrada),

Linha de Produção- De acordo com Francisco Nunes, a Fatema chegou a compor um quadro de até 500 funcionários. Era uma fábrica de média produção onde trabalhadores executavam tarefas manual e com ajuda de máquinas. Tinha nove filatórios de anéis (Aparelhos com que se formam os novelos para fiação) cerca de 100 máquinas de tecelagem instaladas e posteriormente foram adquiridos mais 16 equipamentos modernos. Fabricava tecido em tela com fios 16, 12, 08 e fio 20, este último da marca Jacaré. A produção seguia com destino à Capital e para os estados onde estavam instalados os moinhos da rede. Quando a unidade têxtil encerrou as atividades funcionava com o operacional trabalhando em três turnos: primeiro turno – de 6h às 14:15h; segundo turno – 14:15 às 22:30h; terceiro turno – 22:30h às seis da manhã.

Integração – Os funcionários da Fatema eram integrados as outras empresas do Grupo J. Macedo, instaladas na Capital ou cidades mais próximas. “Eu treinava voleibol em Fortaleza no Colégio Imaculada Conceição, porque na fábrica de Maranguape não existia a modalidade. Tínhamos o consentimento para fazer parte das atividades de esporte e lazer junto aos profissionais contratados por outras empresas do grupo . Da mesma forma, os rapazes que jogavam futebol de areia treinavam fora de Maranguape, enquanto não contavam com um campo. Nós tínhamos um carro à disposição para nos levar e trazer de volta e era assim que participávamos dos campeonatos das indústrias”, declarou Socorro Mendes. “Foi lá que vivi a melhor experiência de trabalho. Diariamente fazia contato com 32 agências bancárias identificando operações, mudanças de cotações e outros tipos de movimentação financeira. Em seguida, fazia contato com o pessoal do grupo em Fortaleza. Foi um tempo de muito aprendizado”. A sorte andava com ela, pois Socorro ganhou até título de beleza na fábrica, eleita Rainha da Fatema nos anos de 1975 e 1976. Representou a empresa no concurso “A Mais Bela Industrial do Ceará” e nos respectivos anos ficou em segundo lugar. Em 1975 trouxe o título de Princesa do Ceará e em 1976 foi agraciada com a faixa de Miss Simpatia.

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A ex-funcionária Socorro Mendes na passarela do Concurso A Mais Bela Industrial do Ceará

O Time da Fatema– “O primeiro arador do Campo do Nilo foi o time da Fatema. Retiramos a mata, colocamos as traves para as partidas e treinos e assim, o campo ficou acessível à comunidade”, enfatizou Ribamar. Na inauguração do primeiro Ginásio Coberto de Maranguape na gestão do prefeito Jose Gurgel Filho, mandato 1973/1976, o time da J. Macedo participou do Torneio de Futebol de Salão sagrando-se campeão. A equipe venceu o Maranguape Tênis Clube com o placar final de 5 x 3. Além de levar a taça foi premiado com o melhor artilheiro.

O time de Futebol de Salão da Fatema

As datas comemorativas- Estas faziam parte do calendário da empresa e do sindicato como forma de manter a interação, o estímulo, a motivação e sobretudo reconhecer a valorização dos empregados. Uma boa maneira de promover o engajamento da família Fatema.

A Festa de 1º de Maio, Dia do Trabalho Por muitos anos, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Maranguape e Fatema estiveram juntos nas comemorações do 1º de Maio, Dia do Trabalhador. O encontro reunia funcionários, membros do sindicatos, autoridades municipais e outros convidados. O momento era de reflexão, integração e agradecimentos.

Celebração do Dia do Trabalho pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Maranguape e Fatema

A entrega dos “Broches de Ouro” – Comenda do Grupo J. Macedo para agraciar operários que completavam 10 anos de empresa. A solenidade especial se repetia a cada 10 anos.

Francisco Nunes eleito Operário Padrão em 14 de agosto de 1966. Momento da festa

A confraternização de Natal dos funcionários – Como em toda empresa, a festa de fim de ano era muito esperada. A J. Macedo presenteava seus operários com uma cesta básica e uma rede. Um jeito caloroso de agradecer seus colaboradores pelo trabalho e esforço conjunto durante o ano.

Responsabilidade social com a comunidade local – Mesmo numa época em que empresas ainda não apresentavam muita importância para o desenvolvimento da responsabilidade social, a J. Macedo já cumpria o seu papel praticando ações que geravam benefícios, balizando seu relacionamento com a comunidade ou como patrocinadora ou apoiadora dos eventos sociais e movimentos de escolas. A educadora Mena Nunes testemunha que quando a direção do Colégio Estadual Anchieta realizou uma gincana para angariar material de expediente, porque na época não existiam projetos financeiros para compra de material, a sua equipe “Bandeira 2 “foi na Fatema pedir contribuição ao Sr. Antônio Gonçalves. “Ele fez a doação de uma boa quantidade de algodãozinho para a gente vender e com o dinheiro comprar as resmas de papel, uma das tarefas da gincana. Nós, estudantes e os organizadores de eventos, sempre contávamos com a J. Macedo na hora que precisávamos de tecido para cobrir passarelas de desfiles de rainhas, faixas para pedágios e divulgação de festas”, ponderou.

A conquista do SESI- “A vinda do Serviço Social da Indústria (SESI) para Maranguape foi uma luta da Fatema. O propósito da fábrica era garimpar uma escola para funcionários e filhos de funcionários. O SESI, órgão ligado às indústrias, oferecia essa prestação de serviço. Foi uma grande conquista”, disse Ribamar Lima. Todos os operários tiraram a sua carteirinha que garantia também o direito a dentistas e médicos conveniados.

A Vila J. Macedo – De acordo com Francisco Nunes, após à implantação da fábrica, a prioridade foi criar a Vila J. Macedo para abrigar os operários que vinham de outros estados com o objetivo de treinar o pessoal de Maranguape. Construir as casas era muito mais vantagem do que investir em aluguel e era a decisão de muitas indústrias na época. Foram edificadas 32 residências com fundos correspondentes. Quatro blocos de oito casas com frente para Norte e Sul. A Vila Amarela eram formada por quatro casas grandes designadas aos profissionais de alta escalão. As demais, habitações menores, foram padronizadas com as cores branca e cinza. Ficaram reservadas para a mão de obra especializada. Não se pagava aluguel, apenas era descontada uma taxa de 20% sobre o salário do funcionário.

 A única casa modelo padrão da Vila J.Macedo existente no bairro Parque Iracema

A pedagoga Ivanilda Lima, irmã do contramestre Ribamar, falou de forma apaixonada dos anos que viveu na vila. “Fiz muitas amizades lá. Lafayete, Orner, Célia Paz, Altaíza, Socorrinha, Janete, Nadir, Tereza do Antônio Gonçalves e as filhas do Zequinha Gadelha eram nossos vizinhos. Era muito bom. Vivemos momentos inesquecíveis nas brincadeiras de calçada e nos dramas apresentados na garagem das casas grandes. A gente cobrava até ingresso”, deu risadas. A tranquilidade da vila, as casas bem estruturadas e bem conservadas garantiam o bem estar dos moradores. “Eles tinham muito cuidado com a manutenção das casas. Ficava até um senhor disponível para fazer os serviços de capina e alguns consertos quando necessário”, observou Ivanilda. Quem também lembrou com muita saudade do tempo que residiu na vila foi Socorro Mendes. “Quando casei fui morar lá. Um lugar tranquilo. Me arrependo muito de não ter comprado uma daquelas casas”, frisou.

A Vila J. Macedo era formada por moradias baixas com porta estreita e  duas janelas numa rua de calçamento. Uma vila sossegada e  habitada  por gente simples, que cultivava a amizade e cumplicidade. Ana Tércia morava nos terrenos dos Cariocas, bem próximos aos domicílios e fez questão de salientar a importância da Vila J. Macedo para as famílias do bairro. “Era uma referência, porque lá só moravam ilustres profissionais”. Mencionou os nomes de Zequinha Gadelha e Antônio Gonçalves como cidadãos de bem. “Eles viam sempre a necessidade das pessoas e gostavam muito de ajudar”, evidenciou.

Quando a Fábrica de Tecidos Maranguape cerrou as portas, as casas foram expostas à venda e perderam às características arquitetônicas do projeto executado pelo Grupo J. Macedo, devido às obras de reforma. A curiosidade me levou até ao bairro Parque Iracema, para ver se encontrava resquícios da Vila J. Macedo. Pois não é que me deparei na Rua João Mendes Vasconcelos com a casa da D. Aila de pé com seu passado histórico escondido entre muitas outras construções modernas que cresceram tanto no sentido vertical como horizontal! E para minha surpresa , o Sr. Edvar Ramos Xavier, ex-operário da J.Macedo estava ali, batendo numa porta e graças a sua curiosidade consegui essa foto abaixo. O Sr. Edvar ficou todo feliz quando eu o convidei para o registro. No caminho ele me falou: “Sai da J. Macedo para a Chenosa, mas depois voltei atrás. Ave Maria, era muito bom trabalhar na J. Macedo. Ali, eles sustentaram muitas famílias de Maranguape”, disse.

Sr. Edvar Ramos , ex-funcionário da J. Macedo de Maranguape

A Vila J. Macedo não foi só a vila dos funcionários que trabalharam na fábrica, mas é a história da Ivanilda, da Nadir Viana, da Célia Paz, da Gorete Araújo, da Eugênia Carioca, da Socorro Mendes, da Jacinta Mendes, da Ana Tércia e de muitas outras pessoas que guardam lembranças e saudade dos bons tempos vividos lá.

A desativação da Fábrica de Tecidos Maranguape – “ A Fábrica de Tecidos do Grupo J. Macedo, atrelada ao Moinho de Trigo Fortaleza, vivia do lucro. Quando surgiu o saco plástico (poliéster) 50% mais barato do que o saco de algodãozinho, a Fatema enfrentou dificuldades. A produção foi caindo e o interesse da clientela também. O grupo não tinha condições de concorrer com a novidade”, explicou o sindicalista Francisco Nunes quando perguntei sobre o fechamento da unidade têxtil. “Fernando Macedo assegurava: a empresa não roda para dar prejuízo. Até para empatar, roda”, enfatizou. Outro comentário que ouvi de ex-funcionários é que o remate da unidade foi consequência, também, do comprometimento com empréstimos agrícolas, que apresentavam proposta de juros mais baixos, para cobrir necessidade de outras empresas do grupo.

Fachada da fábrica pela Rua José Fernandes Vieira

“A certeza é que a empresa não faliu. Fechar foi a decisão, mas antes, eles tentaram um acordo com o Exército e Forças Armadas para fabricar o brim das fardas dos militares. Pensaram num parque industrial transformando toda área da fábrica até à Estação Ferroviária, mas não deu certo”. A J.Macedo nunca fechou juridicamente. Ela simplesmente foi desativada e continuou como patrimônio do Moinho de Trigo Fortaleza. “É tanto que ela ficou representada como Fábrica de Tecidos Maranguape Moinho Fortaleza”, salientou Francisco Nunes.

A Fatema teve papel significativo na economia do Município, abriu muitas oportunidades para trabalhadores, garantiu a sustentabilidade social e alimentou muitas famílias como a da lavadeira Maria do Carmo que respirou mais aliviada  quando o filho Elizeu começou a trabalhar lá.  O Sr. Francisco Paz de Oliveira (Sr. Paizinho,92) foi outro operário têxtil que nutriu a vida de sua família com a renda da unidade têxtil, onde trabalhou de 1968 a 1979. ”Quando a fábrica fechou muitos pais de famílias ficaram desempregados e sem moradia, pois os funcionários que viviam na Vila J. Macedo tiveram que entregar as casas. Na época só existia a J. Macedo e Chenosa. Ficou muita gente sem emprego e renda”, concluiu.

Sr. Francisco Paz de Oliveira e sua página da Carteira de Trabalho assinada em 1968 pela Indústria e Comércio J.Macedo S/A

A sede – O prédio onde funcionou a Fábrica de Tecidos da J. Macedo, construído em 1925, demolido há cerca de três meses, sediou a Dakota Nordeste S/A, a Chapa Perfuradas Nordeste (CPN) e a Fábrica de Confecção IMB Lingerie. Pelo lado da Rua José Fernandes Vieira, se instalou um depósito de bebidas. Do Gigante da Rua Chico Anísio, restam só lembranças ilhadas de sentimentos de amor, amizade e saudade de quem derramou seu suor por muitos anos dando tudo de si por uma causa nobre. Agora é a vez do novo. Toda a área está cercada com placas de alumínio. No interior do terreno dá para ver a máquina removendo a terra. Tudo indica que se trata de prédio comercial. Vamos aguardar e ver o que vai brotar ali. Que seja um negócio de sucesso!!! Ficamos na torcida.

A demolição do prédio construído em 1925

Eu, fico por aqui com o coração contagiado de sentimentos ao ouvir um misto de lembranças boas e saudades por parte das pessoas que entrevistei, e claro, as minhas eternas recordações da Fábrica J. Macedo : o cheiro forte de óleo de algodão, os fios brancos enfeitando as janelas altas, os ruídos provocados pelo funcionamento das máquinas, o seu apito rotineiro e mais especialmente na passagem do Ano Novo . Digamos que ali existiu um império do Ouro Branco por cerca de 60 anos, englobando os tempos da Gradvhol e J.Macedo.

Reflexão: Se o prédio passou tantos anos sem receber os cuidados e se foi tombado não importa mais. O que quero é contar e deixar o registro de uma história de luta, trabalho, desenvolvimento e sustentabilidade que a Fábrica J. Macedo proporcionou em Maranguape; a sua permanência no contexto da sociedade e o forte significado amarrado nas famílias que tiveram a oportunidade de criar seus filhos, realizar sonhos e objetivos trabalhando e otimizando sua renda. Que os 21 anos de atividades e de convivência com a comunidade local não sejam esquecidos com o desaparecimento de sua estrutura gigante. Esse foi o mesmo destino de outras empresas que se instalaram em Maranguape e tiveram vida curta. Fica a nossa indagação: Por que os empreendedores desistem dos negócios e buscam outras cidades como melhor alternativa? Será que falta mão de obra especializada? Ou a cidade não oferece apoio aos empresários? Poderíamos ter tido um futuro melhor se tudo tivesse dado certo desde muito tempo atrás. Teríamos hoje uma grande cidade com mais geração de renda, mais gente com emprego certo, melhores condições de vida e acima de tudo, um POVO MAIS FELIZ.

Entrega da Carta do Sindicato feita pelo Delegado do Trabalho Dr. Vicente Neto

Vila atualmente

A Vila J. Macedo hoje

Matérias publicadas

Agradecimentos:

Entrevista Francisco Nunes de Moura – ex-funcionário da Fatema, presidente do Sindicato dos Trabaladores de Fiaçãoe Tecelagem

-Entrevista Socorro Mendes – ex-funcionária  da Fatema

-Entrevista Ribamar Lima – ex-funcionário da Fatema

-Entrevista com Edvar Ramos –  ex-funcionário da Fatema

-Entrevista Ivanilda Lima

-Entrevista Mena Nunes

Entrevista Tércia Carioca

Entrevista Sr. Francisco Paz de Oliveira

-Gratidão à Sandra (que ajudou a localizar a única casa da Vila J. Macedo- modelo padrão)

-Gratidão à Sandra Moura (filha do Sr. Francisco Nunes por intermediar o contato com o pai)

-Livro : Evolução dos Sindicatos no tempo (Ricardo Pocinho) –O sindicalista Francisco Nunes de Moura ( Chico Caboco/Chico Maranguape). A Memória Viva de um dos Maiores Sindicalistas Vivos Brasileiros

-Arquivo de Sérgio Roberto da Silva

Obs: As entrevistas foram realizadas via Zap por motivo da pandemia exceto Sr. Francisco Nunes de Moura.

Fotos: Cleneide Nunes, arquivo do sindicalista Francisco Nunes de Moura, arquivo de Sérgio Roberto da Silva (Golinha),arquivo de Socorro Mendes, foto cedida por Henilton Travassos.

2 comentários sobre “Sentimentos de afeto e saudade na história da Fábrica de Tecidos J.Macedo

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