Arvoredo Bar no compasso da elite cultural de Maranguape

Arvoredo é um lugar plantado de árvores. Pelo visto nada aleatória a escolha do nome Arvoredo Bar, encravado num terreno de muitas árvores à beira de um riacho onde corre água que desce da serra molhando folhagens e com aquele barulhinho que traz o som da natureza. O espaço cercado de colunas com toda sua simplicidade era um lugar aconchegante. Ambiente agradável e bom atendimento, características essenciais para satisfazer e fidelizar o freguês.  Era assim o bar do Zé do Silva que funcionou por muitos anos no pé da serra de Maranguape, no canto do Botequim de seu pai Sr. Raimundo Silva Cavalcante. Os frequentadores era gente que gostava da boa música, comida com sabor caseiro, do frescor da serra, de conversa bonita e de um recanto mais apropriado para relaxar os músculos da tensão de uma semana agitada de muito trabalho.

José Silva Cavalcante, mais conhecido por Zé do Silva, membro da Marçonaria, trabalhou como taxista e em incubatórios de granjas, mas tinha um sonho para viver; um sonho cheio de esperança que um dia deu certo. Ter o próprio negócio era tudo o que queria. Foi no ano de 1991 que tornou esse desejo uma realidade. Ganhou uma milhar e com ela no dia seis de abril do ano supracitado abriu as portas do Arvoredo Bar na subida da serra da Pirapora. Ponto estratégico para pegar os visitantes, aventureiros de trilhas e banhistas que passavam para conhecer e deliciar-se com as cascatas e bicas, mas não foi essa a clientela que ele puxou para dentro de seu negócio. A freguesia que se formou ali, logo no início tinha a cara do samba, da Bossa Nova e Música Popular Brasileira (MPB).

Nonato do samba, Zezinho Maciel, Manuel Cabral, Jadiel, Alves, Moisés Lourenço, Joãozinho do Macário, Terezinha Macário foram os primeiros fregueses a se encostarem no Arvoredo Bar. E você quer saber qual foi a primeira família que sentou para um almoço, ou melhor, degustar uma feijoada no Arvoredo? Te respondo agora. Foi Dr. Napoleão Lima Lopes com a mulher Madalena e os filhos. O bar atendia de sexta-feira a domingo. O dono não cedia à música ao vivo, só abria alas para uma especial batida de violão do Manuel Cabral, cliente amigo que não fazia falta no final da tarde. “O Zé dizia que no dia que tocasse forró no Arvoredo a caixa de som, pendurada na parede, caía. Num belo dia chegou um casal e pediu pra colocar o forró apimentado dos anos 90. Para não fazer desfeita aos visitantes, ele atendeu ao pedido. Por ironia do destino a caixa caiu”, relatou Joelcio Alves, frequentador assíduo e amigo de muita prosa do dono do bar.  “Zé do Silva dizia que a música no ambiente era para embalar a conversa”, frisou .

A cerveja estava sempre geladinha com cara de mofada. O cardápio diferenciado com opções simples e temperinho caseiro valorizando os pratos. A carne do sol era o carro chefe da cozinha do Arvoredo Bar, mas se sobressaiam o vatapá de sardinha com cenoura, carneiro cozido, peixe frito e ao molho, sarapatel, feijoada aos domingos, filé medalhão e a galinha caipira. Eram certas as encomendas das marmitas do almoço de famílias nos dias de domingo. O atendimento era Vip e com muita precisão para o freguês se sentir bem atendido.

“O Arvoredo Bar era a vida de meu pai. Ele gostava muito de música popular e Bossa Nova. Gostava de conversar, cantar e tocar gaita. Tinha uma boa convivência com seus fregueses. Ficava com o bar aberto até o último cliente”, declarou a filha Cecília. A cozinha era nas mãos da Estela e da Célia. O Iran, que recebeu de um grupo de rapazes, o apelido de “pelelouê”, era o garçon que ajudava servir as mesas. A Estela (56) chegou menina na casa do Zé do Silva e até hoje mora com a família. Disse que aprendeu a cozinhar com a Dolores. Eu perguntei qual o segredo da comida feita no Arvoredo, ela respondeu com toda felicidade deste mundo: “não tem segredo. É o prazer de cozinhar e fazer com boa vontade”. E contou: “um dia, Manassés trouxe uma amiga aqui para comer a cabidela do Arvoredo e quando eu passei, a moça perguntou se era eu quem cozinhava. Ela fez muitos elogios ao prato que foi servido, dizendo que era de primeira. Eu fiquei morta de feliz”, ressaltou.

“O Zé conhecia o cliente. Ele foi um anfitrião”, declarou Joélcio, um dos componentes da Mesa Nº1, batizada assim, carinhosamente, pelo proprietário por sentarem sempre juntos, nunca em mesas diferentes. Vlamir, Aécio, Celinho e Joelcio batiam ponto lá todas as sextas-feiras, sábados e domingos às 11 da manhã. “Eram conversas fantásticas, principalmente quando chegava Dr. Alfredo Marques para falar da política. O momento ficava mais acalorado ainda, com as presenças dos amigos Luiz Alberto, Rubens e Adelaíde”, observou Joélcio. “Ah, uma coisa. O Zé era quem fazia os nossos petiscos. Ele sabia a sequência dos tira gostos”.

Eu fiz questão de ouvir o quarteto da Mesa Nº1, porque quero com esse post selar os melhores momentos do Arvoredo Bar. Saí atrás do Celinho e graças a Deus ele foi bem receptivo. “A figura carismática do Zé fazia a diferença. A comida caseira da Célia era sem igual. Arvoredo era interação de gerações e a certeza do encontro com os amigos. Não precisávamos combinar nada. A gente já ia na certeza de encontra-los lá”, disse Célio Cavalcante Filho (Celinho) ao relembrar os bons tempos do bar. “Eu fui o autor da adaptação do feijão no cardápio do bar, um dos pratos que pedia sempre e não estava no menu, mas foi pegando, os outros foram pedindo e o Zé acabou acatando a sugestão”, ressaltou.

As entrevistas sobre o Arvoredo Bar foram se esticando. Numa conversa e outra sempre surgiam nomes de clientes que não faziam falta por lá e tinham boas confissões a fazer. Em tempo de pandemia a gente usa as redes sociais e aí consegue encontrar as pessoas com mais rapidez. Foi o caso de localizar a Meire Braga e Elisa Sá, figuras sagradas no almoço das sextas-feiras no Arvoredo com o grupo da Secretaria de Saúde. “Dr. César Franco, Dr. Sales Costa, Rubens Barbosa, Dra. Eliane, Elisa, Luiz Alberto e eu tínhamos um pacto de não falar de trabalho à mesa, só se fosse de coisas engraçadas. Rolavam muitas histórias do passado e o Zé ficava ali por perto morrendo de rir de nossas conversas. Depois do almoço uma cervejinha e assim ficávamos até o final da tarde. Era um lugar de jogar conversa fora. Muito gostoso”, disse Meire.

A Elisa completa: “no Arvoredo tínhamos o privilégio de tomar uma cerveja bem gelada ao som do violão do Cabral. A acolhida do Zé, a boa música, sempre MPB, as histórias do Município, as delícias da Dolores, o maxixe ao molho branco, o ovo de galinha caipira, que acompanhava o baião de dois, e o encontro de amigos até o bar fechar. Tens noção do que era? ” O Arvoredo Bar entrava nos planos das pessoas no meio da semana. A farmacêutica Eliana Abreu disse que quando chegava quarta-feira, a amiga Ana Célia (in memoriam), residente em Fortaleza, já ligava para ela programando o final de semana no Bar do Zé do Silva. “ Ih! Ele sempre ia a nossa mesa conversar e às vezes até sentava. Recebia os fregueses como um pai acolhe um filho. Anotava os pedidos e quando nós éramos servidos, ele vinha confirmar se estava tudo bem. Até hoje tenho gravado o jeito que o Zé chegava colocando as mãos sobre as mesas. Era um cidadão fechado, mas sabia conversar com as pessoas que chegavam lá”.

O Aécio e o Vlamir Oliveira também não escaparam de minha curiosidade sobre o tempo de funcionamento do Arvoredo Bar em Maranguape, pois com certeza eles tinham alguma história de momentos especiais vivida ali. O Aécio foi pragmático. “A minha melhor lembrança é do encontro certo que tínhamos com os amigos, as amizades feitas com pessoas que tinham valores e vontade de se confraternizar. A saudade é a ausência do bar e de tudo isso. A vida vai levando a gente por cantos diferentes, vamos convergindo e se polarizando mais na família”, acentuou.

O Vlamir disse que foi um tempo marcante, acha até que, ele, Aécio e Joélcio começaram a frequentar o bar desde o ano de 1993. “A melhor lembrança que eu tenho do Arvoredo era de desfrutar da companhia dos amigos, da boa música, da cerveja gelada, da comida caseira e de realmente se sentir em casa. No Zé a gente se sentia acolhido”, enfatizou. Sabe aquelas palavras que a gente vê em algum canto e elas perpetuam em nossa memória? O Vlamir não esqueceu a mensagem que o Zé do Silva pintou na parede de seu comércio “Aqui tem um pouquinho do seu lar”.  E foi exatamente por isso, pela boa acolhida, estar de braços abertos sempre para receber os seus fregueses e fazer do bar a extensão da casa de cada um, que restaram essas boas recordações do Arvoredo Bar.

Difícil encontrar uma pessoa da cidade que não lembra desse barzinho agradável, bem íntimo da elite cultural de Maranguape. Mariazinha Vasconcelos, Helena Neyla, Verônica Cavalcante, Célia Frota, Raquel Abreu, Mazé dos Santos, Lourdes Barbosa, Joyse Aquino, Aracy Viana, Glaúcia Lobo também guardam memória afetiva dos bons tempos do Arvoredo Bar. Nessa época mais nostálgica e saudosista que estamos vivendo podemos ter a certeza que no tempo do Arvoredo éramos felizes e não sabíamos. A conversa era cara a cara e olho no olho. Era um luxo o encontro dos amigos. Estavam sempre mais próximo um do outro. O celular ainda não dominava as mesas, prova é que foi difícil encontrar uma foto para postar aqui e a que consegui não foi de nenhum aparelho por ondas eletromagnéticas.  Não que seja contra. Sei da importância do celular hoje, como uma tecnologia essencial que oferece uma série de utilidades e facilidades, mas a verdade é que nos aproxima de quem está longe e nos afasta cada vez mais dos que estão perto, isso porque não aprendemos a utilizar.

Vou ficando por aqui deixando a minha gratidão a todas as pessoas que ajudaram a reconstruir o caminho que tomou o Arvoredo Bar durante todo o período que esteve aberto ao público.

“Refletir sobre a memória é valorizar o passado e seus legados, é ser sujeito da construção da história, e isso, é um pressuposto básico para o exercício da cidadania”.

Em breve vou voltar com o Horto Florestal de Maranguape., um lugar onde a natureza cria e mantém fertilidade.

3 comentários sobre “Arvoredo Bar no compasso da elite cultural de Maranguape

  1. Muito bom o texto Arvoredo Bar. É interessante reviver a memória cultural de Maranguape, principalmente para mim, que nasci em Maranguape e vim muito cedo morar em Fortaleza.
    Estou atenta a todos os textos.

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  2. Neide amei esta sua publicação com riqueza de detalhes que mim fizeram voltar ao passado do Bar do Zé do Silva com os amigos que ali frequentavam. Faz parte de minha história de vida pois sempre que podia ia lá com meu pai ou algum irmão tomar banho de riacho e tomar uma cervejinha. Parabéns!

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